What passing-bells for those who die as cattle?- Only the monstruous anger of the guns.Only the stuttering rifles’ rapid rattle- Wilfred Owen (1893 - 1918) As nossas mentes e as nossas escritas conseguem alhear-se deste clima de guerra total que nos rodeia e envolve? A bem da nossa saúde mental, era bom que continuássemos a falar de outras coisas, a olhar para fora de nós e das notícias terríveis que hora a hora nos chegam e em que, crescentemente, “cada homem tem apenas para dar/um horizonte de cidades bombardeadas” (Eugénio de Andrade).A nossa época está a transformar-se numa daquelas épocas em que os tempos se transformam por cima das nossas vontades, quaisquer que elas sejam, e em que se procede a uma destruição selvagem e radical do que passámos décadas a acumular. Como se a guerra fosse a limpeza que fazem os donos da casa antes de mudar a mobília. O nosso drama é que não sabemos quem são os donos da casa, nem que nova mobília querem trazer, porque os fins da guerra ultrapassam sempre as estratégias mais ou menos racionais que movem os líderes que são instigadores e agentes das guerras. Por isso, no final, os resultados são tão diferentes do que vencedores e vencidos tinham previsto!Outra caraterística de todas as guerras é que duram sempre muito mais tempo do que o programado. Daí que nalguns casos sejam os militares, conscientes da insustentabilidade dos objetivos bélicos, a impor a paz aos poderes políticos; mas a situação inversa pode também registar-se.No momento presente, verificamos uma grande indefinição nos propósitos finais desta guerra generalizada no Médio Oriente, além do objetivo claro e permanente, por parte dos Estados Unidos, de garantir a segurança de Israel, mesmo que o final tenha de ser como o da história bíblica de Sansão...A Ucrânia e, por tabela, a Europa, arriscam-se a perder força e presença nesta conjuntura, em que o Médio Oriente vai claramente passar à frente do drama ucraniano.A situação do povo iraniano é cruelmente paradoxal: a esmagadora maioria das pessoas qualificadas e educadas, fora da burocracia estatal, odeia a ditadura teocrático-militar que lhes foi imposta; mas não creio que, apesar de tudo, possam ver com agrado o seu país ser atacado e destruído por forças estrangeiras. Não penso de todo que isso leve estas pessoas (e qual será o seu peso relativo na população iraniana?) a solidarizar-se com um regime que odeiam. Mas não vemos emergir uma alternativa consistente e organizada no seio da valente oposição daquele país.Rumi, o grande poeta e místico sufi (1207 - 1273) dizia das guerras que elas tinham a consistência “das brigas das crianças”. Infelizmente, entre essa consistência e as consequências das guerras a distância é enorme e mortal.Há um costume no Irão de ir junto ao túmulo do poeta Hafez (século XIV) e, abrindo ao acaso o livro dos seus poemas, procurar nele o guia para o nosso futuro. Quando lá estive, vi muitos jovens a procurar o seu futuro num poema de Hafez tirado ao acaso. Fiz o mesmo agora, ao terminar este artigo, e surgiu-me este poema, que vos transmito aqui, com os meus agradecimentos a Hafez, e dedicado ao bravo povo iraniano que luta pela sua liberdade:Os guerreiros domaram as bestasEm seus passados para que os cascos das patas da noiteNão pudessem mais quebrar a visão Ricamente ornamentada do coração.