A guerra voltou a instalar-se no Médio Oriente com uma intensidade que já se podia antecipar há algumas semanas. Os bombardeamentos envolvendo Israel, Estados Unidos e Irão e que têm atingido outros países da região, recolocaram o Golfo Pérsico no centro da instabilidade estratégica global. E as consequências energéticas foram imediatas.O Irão fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa mais de um quarto do comércio marítimo global de petróleo e os mercados energéticos reagiram como seria de esperar. O preço do petróleo e do gás natural têm subido de forma consistente, tocando diretamente nos orçamentos dos países, no funcionamento das empresas e nos bolsos de quem tem contas de eletricidade e gás para pagar, ou depende do carro para o seu dia a dia.Para a Europa, esta crise tem um significado particular. A guerra na Ucrânia já tinha demonstrado que a dependência energética pode transformar-se rapidamente numa vulnerabilidade estratégica.Durante décadas, o continente habituou-se a energia relativamente barata proveniente do exterior, sobretudo da Rússia e do Médio Oriente. Esse modelo permitiu crescimento e estabilidade, mas assentava numa premissa que se revelou frágil: que o contexto geopolítico permaneceria estável.Após 2022, a Europa reorganizou rapidamente as suas fontes de abastecimento e o gás natural liquefeito, importado sobretudo dos Estados Unidos, substituiu uma parte significativa do gás russo.Essa solução evitou uma crise económica mais profunda, mas não resolveu o problema do nosso deficit energético. De facto, apenas trocou uma dependência por outra.Esta nova dependência levanta hoje outra questão. Num sistema internacional mais fragmentado, marcado por tensões comerciais e rivalidades estratégicas e onde o presidente Donald Trump considera a União Europeia um desafio à política nacional dos Estados Unidos, não podemos assumir que o acesso à energia americana será sempre abundante, barato e politicamente neutro. A energia volta, assim, a colocar-nos perante a pergunta europeia clássica: até que ponto controla, o continente, o seu próprio destino?A atual crise envolvendo o Irão reforça esta evidência. Sempre que o Médio Oriente entra em conflito aberto, a Europa fica exposta a choques externos que não controla. A energia deixa de ser apenas uma variável económica ou ambiental e torna-se igualmente um problema de segurança estratégica.É neste contexto que a política energética europeia deve ser entendida. Durante anos, o debate sobre a transição energética na Europa foi apresentado, sobretudo, como resposta às alterações climáticas.Essa dimensão continua a ser central, como as tempestades recentes em Portugal recordaram. Mas hoje existem dois outros argumentos igualmente importantes: a autonomia estratégica e o equilíbrio orçamental.A expansão das energias renováveis reduz simultaneamente emissões, custos e dependências geopolíticas. Cada megawatt produzido por energia solar, hídrica ou eólica é energia que não precisa de ser importada de regiões instáveis. E juntamente com as fontes renováveis, vários países europeus voltaram a considerar o papel da energia nuclear como fonte estável de eletricidade de baixo carbono, capaz de reforçar a segurança do sistema energético.Num mundo onde a energia continua a determinar equilíbrios de poder, guerras e alianças, a lição da crise atual é simples. A transição energética deixa de ser apenas uma escolha ambiental e uma variável orçamental, para se transformar numa condição de soberania estratégica para o continente.Para Portugal, que importa toda a sua energia não-renovável, a opção é tão óbvia que chega a surpreender que ainda a discutamos.