A geração que ninguém ouve

Luís Vidigal

Governação eletrónica

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No passado domingo, dois países falaram-nos da juventude do nosso tempo. Na Sérvia, um movimento nascido nas universidades derrubou nas urnas o autocrata Aleksandar Vučić, ao fim de 14 anos de poder. No Brasil, Lula venceu uma segunda volta em que a Geração Z se partiu ao meio. Entre nós, centenas de jovens montaram tendas no Rossio e na Praça D. João I. Não pediam o fim de nenhuma guerra, pediam apenas uma casa.

Estará a geração mais nova a convergir em torno da paz, da inclusão e da sustentabilidade? A resposta honesta é mais exigente do que um simples sim.

A Sérvia é o caso mais expressivo. Depois de dois anos de protestos pacíficos contra a corrupção, nascidos da tragédia da Estação de Novi Sad, os estudantes não puseram os seus colegas na lista. Puseram médicos, professores, agricultores, gente com credibilidade e sem passado partidário. E num país de meios de comunicação capturados e redes infestadas de bots, não tentaram vencer no digital. Percorreram o país a pé e de bicicleta, aldeia a aldeia. O resultado foi a maior afluência às urnas em mais de três décadas e quase 53% dos votos, com uma maioria absoluta no Parlamento.

O Brasil conta outra história. As raparigas inclinaram-se para quem defendia os serviços públicos e os rapazes para o outro lado. Lula venceu porque reconquistou o território digital que a extrema-direita julgava seu. O deputado André Janones abriu no WhatsApp o canal "Exército do Lula", que ultrapassou os dez milhões de seguidores e distribuiu "missões" a apoiantes tratados como soldados, para ir buscar indecisos e abstencionistas em torno da defesa da democracia. A campanha de Flávio Bolsonaro obteve a suspensão do canal e criou a sua réplica, mas o Exército sobreviveu, a abstenção caiu dois pontos e foi aí que a eleição se decidiu. Venceu a democracia, mas com a gramática que o bolsonarismo inventou em 2018 e isso merece reflexão para o futuro. Tanto mais que Flávio se recusou a reconhecer a derrota e anunciou que pedirá ao tribunal a anulação da eleição.

Mais revelador foi o caso da Meta. A campanha de Lula denunciou que o Instagram dava mais alcance a Flávio e que a Inteligência Artificial da empresa recusava gerar imagens de Lula. A Meta falou de problemas técnicos. O Tribunal Superior Eleitoral, cujo presidente, nomeado por Jair Bolsonaro, tinha suspendido o Exército do Lula, não esperou pela prova da intenção e proibiu-a de reduzir o alcance de qualquer candidato, sob multa diária de meio milhão de reais.

Num sistema opaco, a diferença entre um erro técnico e uma escolha política é indetetável para o cidadão. O Brasil mostrou, em 2022 e agora em 2026, que um tribunal pode neutralizar esse poder em tempo útil, enquanto a Europa tem os instrumentos e ainda não mostrou a mesma rapidez.

A fratura de género é também um dado importante. Em Portugal, por cada rapariga com menos de 25 anos que vota na extrema-direita, quase cinco rapazes fazem o mesmo. Os estudos falam de rapazes que perderam terreno em rendimento, emprego e saúde mental e que ali encontram uma identidade, um inimigo e uma promessa de ordem.

Enquanto isso, circula na Europa uma campanha, feita de imagens geradas por Inteligência Artificial e de perfis automáticos, segundo a qual a Rússia não é o nosso inimigo e que os líderes europeus querem mandar os jovens para a guerra. O medo é legítimo, embora a manipulação esteja em convertê-lo em hostilidade à Europa e em fazer crescer partidos como a AfD na Alemanha. É um falso pacifismo, que usa a palavra paz contra as democracias que a garantem. 

Não há indício de interferência russa nas acampadas portuguesas, mas noutros países as redes pró-russas esperam pelos protestos para os amplificar e vender a imagem de uma Europa em colapso.

Por isso as acampadas nos interessam. São pacíficas e deliberativas, e nascem da mesma crise da habitação que alimenta o ressentimento dos rapazes precários. A falta de casa pode levar um jovem ao Rossio com uma tenda ou a um canal de Telegram com um inimigo. O que decide o caminho é a resposta que recebe do Estado. 

A resposta que estes jovens receberam foi o Corpo de Intervenção da PSP de madrugada, com violência, 55 detidos em Lisboa e um ministro a decretar que as acampadas tinham acabado. No sábado, milhares voltaram ao Rossio. Quando um protesto pacífico é tratado como problema de ordem pública, o Estado dá um sinal aos jovens que a via pacífica não compensa e estimula o radicalismo.

Muitos destes jovens não pedem um emprego para a vida, como os seus pais e avós. Pedem que os deixem construir alguma coisa sua, como trabalhadores independentes ou pequenos empresários. A era digital baixou as barreiras de entrada e mostrou-lhes gente da sua idade a lançar marcas e negócios a partir de um quarto ou de uma garagem. No entanto esse desejo convive com a perda de esperança de viver melhor do que os seus pais. Segundo o Eurostat, os jovens portugueses só saem de casa da família, em média, perto dos 29 anos, quase três anos depois da média europeia.

Também aqui a extrema-direita encontrou um filão. No Brasil, Pablo Marçal construiu a carreira política como guru do enriquecimento rápido e a economia da atenção que vende cursos para ficar milionário vende também o desprezo pelo Estado. A resposta democrática é levar esse desejo a sério, com o registo de uma atividade em minutos, um regime contributivo que não castigue os primeiros anos, proteção quando o projeto falha e crédito que não dependa do património dos pais. É a boa burocracia a trabalhar para quem arrisca e não apenas para quem já tem uma herança.

O digital não é um simples vilão. As mesmas plataformas que radicalizam permitiram aos estudantes sérvios coordenar a luta e a Lula reconquistar os abstencionistas. A questão é saber quem governa os algoritmos! Se não forem as democracias a governá-los, serão eles a governar as democracias.

Podemos então acreditar numa viragem? Acreditamos numa possibilidade, mas não numa inevitabilidade. A Sérvia prova que ela existe, o Brasil prova que é disputada e em Portugal a juventude ainda está a decidir de que lado fica.

A geração que monta tendas não pede muito. Pede uma casa, a liberdade de construir alguma coisa sua e que a ouçam antes que outros, com piores intenções, a ouçam primeiro.

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