A gaiola invisível. Entre Kruschev e Almada: o custo de sermos enterrados vivos

Ricardo Simões Ferreira

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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Em setembro de 1959, Nikita Kruschev aterrou para uma visita aos EUA perseguido por uma frase que proferira três anos antes e que o marcou para toda a Guerra Fria: “Nós vamos enterrar-vos!” O líder soviético passou a viagem a tentar explicar que não falava de mísseis, mas de uma inevitabilidade marxista-leninista: a União Soviética iria ultrapassar os Estados Unidos (e o Ocidente) a nível social, económico e, claro, moral.

Três décadas mais tarde, em 1989, Boris Ieltsin entrava num supermercado em Houston. Pedira, surpreendentemente, até, para os seus assessores, para fazer um desvio. Perante a abundância (para ele) inacreditável de produtos e a variedade de pães – num contraste doloroso com a escassez sistémica em Moscovo –, desabou: “O que fizeram ao nosso povo!”

Se o primeiro tentara vender uma superioridade que se revelava, já à época, fictícia, o segundo testemunhou o colapso empírico da utopia coletivista.

Estes episódios não são retórica, nem fake news, ou resultado de uma mente sórdida. São factos históricos frios e documentados. O século XX provou, com a crueza dos números e a dor dos seres humanos, a inviabilidade do modelo marxista-leninista. No exato período em que o Ocidente prosperava, a URSS tornou-se o único bloco industrializado a registar um declínio contínuo na esperança de vida. O sistema adoeceu e enterrou os seus próprios cidadãos sob o peso da ineficiência económica, do alcoolismo crónico e da degradação profunda da saúde pública.

Mas o século XXI assiste a uma quase incompreensível amnésia histórica. Sob a patine moralizante do “socialismo-democrático”, tenta-se vender uma versão rejuvenescida do mesmo estatismo sufocante. A linguagem é manipulada por oportunistas políticos que sabem canalizar o descontentamento daqueles que se sentem desvalorizados pela realidade, prometendo uma proteção paternalista que serve apenas de rampa de lançamento para o controlo centralizado e a preservação do poder burocrático; ou – e não sei o que é pior – pelos que usam o medo da mudança para tentar capitalizar apoios contra tudo o que seja mudar algo que, manifestamente, já não é bom, prometendo que um modelo que nunca funcionou irá, desta vez, ser a solução.

Esta anestesia histórica não é um exclusivo de lugares distantes; manifesta-se hoje, em ponto micro, por exemplo, na recente crise da água em Almada. Embora a atual gestão do PS carregue a responsabilidade executiva direta pelo falhanço, o colapso da rede hídrica resulta de mais de 40 anos de desinvestimento oculto herdados do antigo bastião autárquico da CDU.

No entanto, nos ecrãs de televisão, multiplicam-se os cidadãos que suspiram de saudades pelas administrações comunistas anteriores, representadas por figuras como Maria das Dores Meira, cujo legado pavimentou o caminho para a rotura técnica que hoje se vive.

Por que falha a memória? Porque a população foi, por anos de educação “estandardizada”, enclausurada numa “gaiola de pensamento” ideológica. Fomos formatados para olhar para o Estado não como um gestor contratual limitado, mas como um tutor benevolente que deve “cuidar de nós”. Quando o monopólio público falha, a mente domesticada não exige concorrência ou gestão privada eficiente, mas sim mais recursos para o próprio sistema falhado e falido. Aceitamos a igualdade na escassez, porque fomos ensinados a temer a autonomia do mercado – o mesmo mercado livre que sempre garantiu que nunca faltasse comida nas prateleiras do supermercado. Mas, curiosamente, a maioria das pessoas nunca se interrogou sobre isso!

A profecia de Ieltsin falhou. O povo não se revoltou ao descobrir o que lhe tinham feito. Porquê? Porque a gaiola mental oferece o conforto de abdicar da responsabilidade individual. Enquanto elegermos governantes com base na promessa de proteção, pagaremos com impostos elevados, serviços degradados e estagnação. Só quando escolhermos quem nos der mecanismos para criar riqueza – tirando-nos o menos possível a cada passo –, poderemos viver em pleno. Caso contrário, continuaremos resignados nesta gaiola, condenados a um estado contínuo de sermos, lentamente, enterrados vivos.

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