Em setembro de 1959, Nikita Kruschev aterrou para uma visita aos EUA perseguido por uma frase que proferira três anos antes e que o marcou para toda a Guerra Fria: “Nós vamos enterrar-vos!” O líder soviético passou a viagem a tentar explicar que não falava de mísseis, mas de uma inevitabilidade marxista-leninista: a União Soviética iria ultrapassar os Estados Unidos (e o Ocidente) a nível social, económico e, claro, moral.Três décadas mais tarde, em 1989, Boris Ieltsin entrava num supermercado em Houston. Pedira, surpreendentemente, até, para os seus assessores, para fazer um desvio. Perante a abundância (para ele) inacreditável de produtos e a variedade de pães – num contraste doloroso com a escassez sistémica em Moscovo –, desabou: “O que fizeram ao nosso povo!”Se o primeiro tentara vender uma superioridade que se revelava, já à época, fictícia, o segundo testemunhou o colapso empírico da utopia coletivista.Estes episódios não são retórica, nem fake news, ou resultado de uma mente sórdida. São factos históricos frios e documentados. O século XX provou, com a crueza dos números e a dor dos seres humanos, a inviabilidade do modelo marxista-leninista. No exato período em que o Ocidente prosperava, a URSS tornou-se o único bloco industrializado a registar um declínio contínuo na esperança de vida. O sistema adoeceu e enterrou os seus próprios cidadãos sob o peso da ineficiência económica, do alcoolismo crónico e da degradação profunda da saúde pública.Mas o século XXI assiste a uma quase incompreensível amnésia histórica. Sob a patine moralizante do “socialismo-democrático”, tenta-se vender uma versão rejuvenescida do mesmo estatismo sufocante. A linguagem é manipulada por oportunistas políticos que sabem canalizar o descontentamento daqueles que se sentem desvalorizados pela realidade, prometendo uma proteção paternalista que serve apenas de rampa de lançamento para o controlo centralizado e a preservação do poder burocrático; ou – e não sei o que é pior – pelos que usam o medo da mudança para tentar capitalizar apoios contra tudo o que seja mudar algo que, manifestamente, já não é bom, prometendo que um modelo que nunca funcionou irá, desta vez, ser a solução.Esta anestesia histórica não é um exclusivo de lugares distantes; manifesta-se hoje, em ponto micro, por exemplo, na recente crise da água em Almada. Embora a atual gestão do PS carregue a responsabilidade executiva direta pelo falhanço, o colapso da rede hídrica resulta de mais de 40 anos de desinvestimento oculto herdados do antigo bastião autárquico da CDU.No entanto, nos ecrãs de televisão, multiplicam-se os cidadãos que suspiram de saudades pelas administrações comunistas anteriores, representadas por figuras como Maria das Dores Meira, cujo legado pavimentou o caminho para a rotura técnica que hoje se vive.Por que falha a memória? Porque a população foi, por anos de educação “estandardizada”, enclausurada numa “gaiola de pensamento” ideológica. Fomos formatados para olhar para o Estado não como um gestor contratual limitado, mas como um tutor benevolente que deve “cuidar de nós”. Quando o monopólio público falha, a mente domesticada não exige concorrência ou gestão privada eficiente, mas sim mais recursos para o próprio sistema falhado e falido. Aceitamos a igualdade na escassez, porque fomos ensinados a temer a autonomia do mercado – o mesmo mercado livre que sempre garantiu que nunca faltasse comida nas prateleiras do supermercado. Mas, curiosamente, a maioria das pessoas nunca se interrogou sobre isso!A profecia de Ieltsin falhou. O povo não se revoltou ao descobrir o que lhe tinham feito. Porquê? Porque a gaiola mental oferece o conforto de abdicar da responsabilidade individual. Enquanto elegermos governantes com base na promessa de proteção, pagaremos com impostos elevados, serviços degradados e estagnação. Só quando escolhermos quem nos der mecanismos para criar riqueza – tirando-nos o menos possível a cada passo –, poderemos viver em pleno. Caso contrário, continuaremos resignados nesta gaiola, condenados a um estado contínuo de sermos, lentamente, enterrados vivos.