A futebolização da política

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Ao Botafogo de Ribeirão Preto, clube da cidade onde o autor destas linhas passa a maior parte do seu tempo, bastava uma vitória em casa, ou até um empate, com o modestíssimo Capivariano para se apurar para os quartos de final do Paulistão, o Campeonato Estadual em que a equipa aposta muito do seu prestígio e das suas finanças.

No fim das contas, mesmo a jogar com mais um homem quase metade do jogo, perdeu por culpa de um golo no último minuto.

O que é que esta irrelevante notícia desportiva tem a ver com a atualidade política e social do Brasil, tema habitual destes textos? Isto: na segunda-feira após a terrível eliminação, circulavam pelas ruas da cidade, mais do que nunca, pessoas com a camisa do Botafogo orgulhosamente vestida.

Sabemos que o Corinthians bateu recordes de público em 2007, o único ano em que amargou a presença na 2.ª Divisão. Ou que 60 mil adeptos do Bahia invadiram a Fonte Nova, estádio do clube, quando o emblema de Salvador caiu para a terceira. Etc. Etc.

No futebol, a lealdade clubista é mesmo incondicional, se bem que nem sempre saudável, porque deriva com frequência no tribalismo e no sectarismo, seja no Brasil, seja noutros pontos do planeta.

Na política, o fenómeno estava muito menos presente nas últimas décadas do século passado e nas primeiras do atual no Brasil e noutros pontos do planeta porque, por aqueles dias, julgava-se que as democracias, supostamente, estavam a amadurecer (afinal, à distância, parece que estavam era a apodrecer…).

De há uns anos a esta parte, com o recrudescimento do populismo, a política aproximou-se da paixão, em vez da razão, e do tribalismo e do sectarismo do futebol.

“Poderia dar um tiro em alguém na 5.ª Avenida que não perderia votos”, disse Donald Trump, o exemplo globalmente mais relevante do recrudescimento do populismo, em janeiro de 2016.

No Brasil, Jair Bolsonaro pode estar preso e inelegível, mas o bolsonarismo segue vivo, como provam as sondagens com o primogénito Flávio Bolsonaro cada vez mais solidificado no segundo lugar, atrás de um Lula da Silva que, por sua vez, soube o que era lealdade clubista incondicional quando, todas as manhãs dos 581 dias em que esteve numa cela em Curitiba, foi acordado por apoiantes a gritarem “bom dia presidente Lula”.

Já se escreveu aqui, a propósito das eleições de outubro, que o Brasil está dividido em três terços: dois calcificados em torno do lulismo e do bolsonarismo, que apoiam Lula ou Bolsonaro ,ou quem eles indicarem, mesmo que os líderes matem alguém na Avenida Paulista. E um outro, independente, indeciso, volúvel, pendente - e decisivo.

A propósito, nas presidenciais portuguesas, a matemática consolidou a tese transatlântica: António José Seguro somou o terço pendente ao dele (66% dos votos), isolando o terço de André Ventura (33%).

Na política, há cada vez mais “adeptos” tribais e sectários, que, como no futebol, nascem, vivem e morrem do mesmo clube, mesmo que ele perca no último minuto a jogar com mais um. E isso é, do ponto de vista da evolução das democracias, um autogolo.

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