"Há nove anos, tive a sorte de ser o primeiro primeiro-ministro da Índia a visitar Israel, e estou muito feliz por estar aqui novamente, regressando a uma terra pela qual sempre me senti atraído. Afinal, nasci no mesmo dia em que a Índia reconheceu formalmente Israel, 17 de setembro de 1950", declarou esta quarta-feira Narendra Modi, num discurso no Knesset, o Parlamento israelita, em Jerusalém, num ambiente de sintonia entre os dois países, claramente transformados em aliados.O reconhecimento do Estado Judaico aconteceu realmente em 1950, mas a normalização diplomática absoluta teve de esperar até 1992, quando foram abertas as duas embaixadas. Desde então, e sobretudo desde que Modi se tornou primeiro-ministro, em 2014, a cooperação israelo-indiana tem sido reforçada, com foco na agricultura e na gestão da água, igualmente na tecnologia, mas também na luta antiterrorista e na Defesa. A Índia tornou-se mesmo o maior importador de armamento israelita, agora segundo fornecedor só atrás da Rússia, enquanto para Israel, além dos negócios, a amizade com o mais populoso país do mundo significa um ganho diplomático de grande importância perante as tentativas de isolamento no Sul Global. No Knesset, Modi enfatizou sem reservas essa aliança, e garantiu que a Índia está “firmemente” ao lado de Israel depois do ataque terrorista do Hamas a 7 de outubro de 2023, que fez mais de mil mortos e mais de 200 reféns. Benjamin Netanyahu, por seu lado, elogiou, aplaudiu e cumprimentou o “amigo” indiano. Há quem recorde que durante décadas, salvo raros momentos, a Índia alinhava com o campo soviético e terceiro-mundista muito crítico de Israel. E que em 1947 até votou contra o plano das Nações Unidas para divisão da Palestina sob mandato britânico. Foi uma votação muito motivada por questões internas, pois a Índia recém-independente tinha, ela própria, sofrido uma partição, no momento final da colonização britânica, com a criação de um Estado separado para os muçulmanos, o Paquistão. Mesmo de esmagadora maioria hindu até hoje, a Índia continuou diversa, contando com 20% de muçulmanos, além de substanciais minorias cristã, sikh ou budista. Tem mesmo cerca de cinco mil judeus, e na sua História recente um membro da comunidade judaica, o general JFR Jacob, foi o comandante decisivo na guerra contra o Paquistão que levou à criação do Bangladesh, em 1971. Os líderes indianos orgulham-se da tradição de tolerância religiosa no país, e afirmam que os judeus nunca ali sentiram a perseguição que ocorreu na Europa e no Médio Oriente. Mas Jawaharlal Nehru, o primeiro chefe do governo pós-independência, iniciou uma política externa que procurava manter boas relações com o mundo árabe e, portanto, não surpreende que durante as décadas de poder do Partido do Congresso essa fosse a orientação dominante. Em 1988, o país foi mesmo dos primeiros a reconhecer um Estado Palestiniano, era primeiro-ministro Rajiv Gandhi, filho de Indira Gandhi, que foi também chefe do governo, e neto de Nehru. O fim da Guerra Fria, mesmo não afastando a Índia do aliado soviético/russo, trouxe a tal normalização com Israel, e uma cooperação que foi aumentando com os sucessivos governos. Mas Modi, e o governo do Partido Nacionalista Hindu, fazem a diferença, tentando não hostilizar o mundo árabo-muçulmano, mas procurando em Israel a parceria tecnológica que lhe permitirá lidar com a hostilidade do Paquistão e, até certo ponto, da China.Também joga a favor da parceria a boa relação pessoal dos dois líderes, ambos de direita. Críticas internas a esta visita de Modi têm vindo da esquerda indiana, com Pryianka Gandhi, irmã de Rahul Gandhi, o líder da oposição, a acusar o primeiro-ministro de relegar para plano secundário a retaliação israelita em Gaza após o 7 de Outubro, que terá causado dezenas de milhares de mortes. Mas mesmo nos governos da longa era de domínio da dinastia dos Nehru-Gandhi houve discreto apoio militar israelita à Índia nas guerras com o Paquistão, o que já indiciava interesses comuns.Veremos como evolui esta aliança entre dois países que têm em comum vizinhanças em boa medida hostis e que, apesar da diferença de tamanhos, partilham a condição de potência nuclear. O desafio será consolidar-se mesmo num cenário pós-Modi e pós-Netanyahu.