Dizem que António Lobo Antunes já não está, mas faz pouco sentido afirmar a partida de alguém que não pode partir, de alguém que se tornou maior do que a própria vida feita de carne, sangue e vísceras.Fê-lo pela escrita, pelas palavras que escreveu torrencialmente à mão em folhas de papel que pareciam ganhar corpo quando nos aproximávamos da sua mesa de trabalho, pelos romances e pelas crónicas, pelo enfado, pelo modo como nos olhava, pelo excesso de liberdade, pelo medo da irrelevância… por tudo isso, conquistou o direito de ser imortal.. Morreu com 83 anos, com a mesma idade e no mesmo dia de março da enorme Helena Vieira da Silva. Escreveu livros que ficam. Resgatou das entranhas o pesadelo coletivo da Guerra Colonial. Pensou sobre Portugal, ofereceu uma universalidade às nossas sombras e desafiou os seus próprios demónios a serem parte de uma herança que agora nos deixa. Escreveu também o livro da minha vida, um Manual dos Inquisidores que me atropelou estúpidas certezas e me devolveu a humildade que é a única condição possível para continuar, até ao último dia, espantado com esta coisa de estar aqui.Era psiquiatra. Adorava estar com doentes, sentia-se em casa, seguro. Aos seus amigos dizia que os amava. Fumava como se fosse Bogart, ria-se para dentro quando simulava um ar ausente para que não o chateassem nos restaurantes ou quando punha os pés na rua.Era genial, terno e insuportável. Deixou três filhas e uma biblioteca que é um país grandiosamente pequeno e humildemente grandioso.