A Figura do Dia. Uma borboleta fugiu da carga policial

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Há momentos que parecem não ter importância, mas que se revelam decisivos no curso da História e no destino de figuras, governos e países.

Uma frase mal(dita) por tão desajustada e fora da realidade, um suor revelador de uma inesperada fragilidade ou uma carga policial contra multidões que expressam uma indignação geral, podem desencadear o voo de uma borboleta cujos efeitos, no outro lado do mundo, conhecemos da célebre Teoria do Caos.

"Os polícias que entraram a matar estão na mesma situação – as dores de quem levava porrada eram iguais às dos que levantaram o bastão."

Tenho a convicção de que a ação da PSP contra os manifestantes acampados na Praça D. João I se enquadra na categoria dos acontecimentos que desencadeiam tempestades que mudam a natureza das coisas.

Muito tem sido dito, discutido e gritado. Porém, há um pecado original que torna imprevisível a reação da opinião pública: é que a larga maioria dos portugueses deixou de poder arrendar ou comprar uma casa. Não há praticamente ninguém com menos de 30 anos que possa sair do ninho sem correr o risco de a sua vida se desmoronar.

Os polícias que entraram a matar estão na mesma situação – as dores de quem levava porrada eram iguais às dos que levantaram o bastão.

"Tenho a convicção de que a ação da PSP contra os manifestantes acampados na Praça D. João I se enquadra na categoria dos acontecimentos que desencadeiam tempestades que mudam a natureza das coisas."
"Tenho a convicção de que a ação da PSP contra os manifestantes acampados na Praça D. João I se enquadra na categoria dos acontecimentos que desencadeiam tempestades que mudam a natureza das coisas." FOTO: Paulo Spranger

A este erro coletivo de cálculo não ajudou a voz do primeiro-ministro, do presidente da Câmara do Porto e de vários protagonistas políticos que se colocaram ao lado dos que agrediram miúdos como se estes estivessem a partir montras, incendiar carros ou explodir cocktails Molotov.

E o que dizer do Chega? Como receberá o povo que neles vota a indignação dos deputados contra os que se manifestam contra o preço das casas?

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