Há milhares de desaparecidos na Venezuela. E temos visto, como sempre acontece, exemplos do melhor do ser humano. Gente que se sacrifica pela vida dos outros, que arrisca no terreno, que salva crianças de destroços e nos oferece a prova de que vale a pena acreditar que em nós existe fermento e futuro. Mais de dois mil socorristas viajaram para a costa caribenha e Caracas para ajudar a desenterrar milagres e esperança. Respeito e admiração.Depois, há o resto do que somos. A prova da guerra mais primitiva, a que nos aflige desde que éramos macacos em fuga e descobrimos o fogo, a vergonha e o poder..Cada coisa boa traz em si a semente da sua própria destruição, cada cubículo habitado de luz carrega uma penumbra perversa e pronta a uivar por atenção. Um lugar de tragédia é sempre uma oportunidade para o Mal poder vomitar o seu desejo.Há sempre quem beneficie com a morte, com a desgraça, com o sofrimento. E é uma perfídia democrática – ricos e pobres encontram-se nessa Barca do Inferno, uns para comer milhões e oportunidades nos destroços e outros para abocanhar o que estiver à mão. Detestáveis hienas que gangrenam nas margens das notícias e das vidas.."E há quem esteja a assaltar casas, hospitais e escolas para roubar o que lá estiver ou tirar o ouro dos soterrados. Somos estes. Grandiosos e miseráveis.". Há quem esteja a comprar ações de empresas que desvalorizaram e a posicionar-se para ganhar contratos de reconstrução. E há quem esteja a assaltar casas, hospitais e escolas para roubar o que lá estiver ou tirar o ouro dos soterrados.Somos estes. Grandiosos e miseráveis. Esta é a verdadeira mãe de todas as guerras.