João Gil não perdeu apenas alguns dos seus melhores amigos. Foi mais uma tempestade perfeita, o desmoronar de uma parte substancial do que é e do tanto que construiu. Só há uma coisa previsível na vida, a sua absoluta imprevisibilidade, todos os dias tenho mais presente esta ideia. Morreu-lhe Nuno Guerreiro, morreu-lhe Luís Represas, morreu-lhe Jorge Palma. Tão pouco tempo entre cada uma das tristes notícias, tão pouco tempo para fazer o luto de cada um deles e dos projetos que fundou: Ala dos Namorados, Trovante e Cabeças no Ar.
João Gil é o elo comum de todas as partidas e é isso que celebramos – a sua não desistência, a sua extraordinária capacidade para amedrontar fantasmas, convocar a vida e provocar o futuro. Fará em dezembro 71 anos e amanhã lança um álbum a solo a que mentirosamente chamou “Inteiro”, como se não estivesse partido, aos bocadinhos, mas ainda assim vivo, sonhador e sempre o eterno miúdo que compôs “Perdidamente” para a voz do Luís, “Loucos de Lisboa” para a alma de Nuno ou “O Cheiro dos Livros” a que Jorge ofereceu a voz.
Enorme admiração pelo João. Comovente ouvi-lo na sua viola ou ao piano onde aprendeu recentemente a compor como o seu “irmão” Bernardo Sassetti que, de um dia para o outro, decidiu abalar sem deixar morada ou número secreto, nada de nada. Um dia perguntei-lhe: “João, como és tão vida quando carregas tanta morte?”. Respondeu-me que viverá até ao último segundo, que até ao derradeiro dia procurará o acorde perfeito que tudo explicará.