No mundo da Cultura Portuguesa a dança é a arte mais maltratada, esquecida e menosprezada. Chega a ser escandalosa a maneira como bailarinos e coreógrafos são invisíveis aos olhos da comunicação social e do poder.
Um dia assisti a um ensaio da Companhia Nacional de Bailado e passou-me pela cabeça que eram loucos: só assim se explicava o esforço inumano, o sacrifício até à dor, a repetição obsessiva dos gestos, a procura da perfeição.
Ser bailarino exige que o corpo seja deformado de todas as rugosidades, de todos os músculos fora do lugar, de todas as imperfeições. Exige uma completa dedicação para, em troca, receber-se tão pouco.
Nas distribuições de prémios, como os Globos de Ouro, há estatuetas para todos os gostos e categorias, menos para o bailado ou a dança. Ou para a coreografia. Ou para o melhor espetáculo. É absurdo e faz pensar.
Repare, a Câmara de Lisboa deu nome de rua à enorme Pina Bausch, nada contra. No entanto, Margarida Abreu, Águeda Sena ou Jorge Salavisa, que eu saiba, não têm nomes em ruas, pracetas, apeadeiros, becos ou encruzilhadas.
Marcelino Sambé, António Casalinho ou Margarita Fernandes são solistas nos melhores palcos do mundo, mas ser bailarino em Portugal é uma guerra diária contra o esquecimento. Contra a permanente vulnerabilidade, contra a insegurança de não saber o que fazer quando a carreira terminar, contra a falta de dinheiro, contra a resistência do corpo, contra as sequelas que ficam depois, a troco de quase nada.
Não é justo. E não é de um país cosmopolita, um país que acreditamos ser.