Não sei se Manuel Serrão burlou o Estado em dezenas de milhões de euros como é acusado pelo Ministério Público no processo-crime Operação Maestro. O processo está na fase de inquérito e o empresário aguarda pelo julgamento.
Espero que seja inocente pela memória de Daniel Serrão, seu pai. O professor Serrão, felizmente, morreu há quase dez anos. Ter-lhe-ia sido penoso ser testemunha de uma suspeição ética tão grave em relação ao filho – é que ele foi, na história da Medicina portuguesa, um dos exemplos máximos de combate por uma ideia ética.
Mestre de Manuel Sobrinho Simões e de outros médicos que marcaram o tempo, corajoso no modo como não sacrificou o que defendia quando se dá o 25 de Abril, considerado o pai da Bioética e um dos primeiros na Faculdade de Medicina a introduzir o debate sobre deontologia médica.
Podia ter mil defeitos, ser um privilegiado, um príncipe da Medicina ou até ter laivos de arrogância, mas era inatacável nos princípios, ficava doente quando alguém não era sério, quando políticos, alunos, colegas, amigos ou familiares eram menos exemplares do que podiam ou deviam ser.
Daniel Serrão não suportaria que o mais velho dos seus seis filhos estivesse envolvido num esquema de desvio de dinheiro. É por isso que acredito na sua inocência pois a outra hipótese seria demasiadamente penosa.
Se Manuel Serrão for culpado, se os indícios se confirmarem, seria a evidência de que não há limites para a escandalosa imaginação do destino. Se for culpado a sua pena na vida será bem maior do que qualquer sentença decretada por um juiz.