Sei da ausência de democracia, dos presos políticos, do sangue das perseguições, da ortodoxia e da censura.
É difícil criticar a ditadura de extrema-direita e aplaudir a de esquerda – incomportável ter dois pesos e duas medidas, impossível sustentar um pensamento coerente quando se ataca Hitler defendendo Estaline ou se diaboliza Mussolini aplaudindo Mao. Todos os totalitarismos são ignóbeis e convocam o pior do ser humano.
Sabendo isso, defendendo-o sem qualquer ponta de dúvida: quero Cuba de volta. Quero o quarto 511, no 5.º andar do Hotel Ambos Mundos, onde Hemingway escreveu o Por Quem os Sinos Dobram.
Quero as pessoas de regresso à rua a cantar e a dançar rumbas e boleros. Quero ouvi-los tocar Buena Vista Social Club e ser abordado por poetas, pintores e vendedores de charutos e rum.
Quero andar por Havana num Chevrolet e beber um mojito com um velho companheiro de Che Guevara ou uma cerveja gelada entre os livros de Padura. Quero voltar a andar pela cidade velha, esgueirar-me pelas antigas fortalezas espanholas, casa dos gatos vadios e saudosos da Sierra Maestra.
Sei sobre o totalitarismo, mas quero Cuba de volta. Prefiro a poesia desta ditadura do que a ficção barata dos democratas que se adivinham.
Não gosto da felicidade dos cubanos exilados em Miami, gente que festeja enquanto compatriotas morrem de fome nas ruas de Havana.
Podem ter razões, certamente que as terão, mas olho para eles a gritar e não acredito que saibam cantar ou que oiçam Omara Portundo nas suas casas com posters do Capitão América.