Estive várias vezes com Vera Lagoa e nunca fui capaz de lhe dizer nada ou ela a mim. Encontrávamo-nos sempre no elevador, eu a caminho da casa da minha melhor amiga, filha do jornalista Augusto Carvalho, e ela da redação do Diabo.
Naquele glorioso tempo, ela representava para muita esquerda o próprio Satanás reencarnado – até por ser uma mulher excecionalmente bonita, cuja força aterrorizava a larga maioria dos homens, o habitual.
Encontrávamo-nos no elevador e eu encolhia-me. Tinha menos de 20 anos e ela falava alto, era espaventosa e tinha o lastro da coragem que eu sempre soube que estava longe de ser um património exclusivo da esquerda.
Vera Lagoa, pseudónimo de Maria Armanda Falcão, resistira a ataques à bomba da extrema-esquerda e a navalhas apontadas à garganta por gente de direita incomodada pela publicação de notícias sobre a morte de Sá Carneiro, Amaro da Costa e Snu Abecassis na tragédia de Camarate.
O Diabo completou meio século de vida, mas deveria ter morrido com ela, em 1996. Continua a existir, continuamos a vê-lo nas bancas, só que não… passou a ser outra coisa: um lembrete dos dias em que a voz de Vera Lagoa se ouvia em Belém e São Bento, um post-it que nos recorda o quanto é importante colocar o ponto final parágrafo no tempo certo. Acabar bem para poder fazer outra coisa, criar novas vidas, novos projetos.
Deixem morrer o Diabo para que Vera Lagoa possa descansar no lugar onde está. Libertem-na da tristeza de estar sozinha no elevador, para cima e para baixo, sem vos conseguir dizer que já chega.