As mulheres fortes e afirmativas provocam pânico e suores frios a homens inseguros. É um efeito curiosamente parecido com o de José Pacheco Pereira que, com a sua cultura e memória, é um monstro de várias cabeças para ignorantes atrevidos e doutorados na desgraçada espuma dos dias. Poucas pessoas são tão atacadas quanto ele em plataformas de grunhos e aspirantes a tiranetes de condomínio.
O caminho de Pacheco Pereira é único na história desta tremente República. Filho de uma família aristocrata do Porto, mas amarrado ao peso do mundo, virou as costas aos privilégios de classe e combateu o Estado Novo, antes e depois de Salazar – fê-lo no liceu, na universidade, nos círculos maoistas e na clandestinidade.
Era implacável, corajoso e faria o que fosse necessário para estar ao lado dos que lutavam pela liberdade, a palavra que, em si, resistiu a todas as marés. Afasta-se da revolução chinesa e faz um caminho solitário que o leva ao PSD de Cavaco Silva de quem se torna próximo.
Com Vasco Graça Moura é o escudo intelectual do cavaquismo, mas a liberdade (sempre ela) é o seu dogma, a liberdade e uma feroz consciência que o disciplina contra qualquer tentação de lugares, benesses ou troca de favores. É muito bonito que o último combate da sua vida seja a luta contra a extrema-direita.
Pacheco Pereira torna ao lugar onde a sua viagem começou. Passaram mais de 50 anos, mas ninguém duvide de que seria dos primeiros a regressar à clandestinidade se caísse em Portugal uma madrugada que não amanhecesse.