É das pessoas que melhor escreve e a que mais me irrita. Culta, mas snob. Brilhante, mas presunçosa. Referencial, mas de uma arrogância que toca a soberba. Clara Ferreira Alves, eterna e luminosa, mas também sombria, pedante e de um cosmopolitismo nouveaux rich.
No Expresso, na crónica que publicou na última edição, contou de uma paragem num hotel madrileno mais “estrelado do que um ovo”. Na primeira noite acordou com o estardalhaço feito por um grupo de gays em festa. Protestou e ofereceram-lhe um upgrade, um quarto maior e isolado de todas as confusões.
Na nova cama tornou a acordar com o pescoço coberto de babas e uma comichão bíblica. Um amigo alergologista informou-a de que só podiam ser bedbugs. Clara assustou-se. Não com os bichos, mas com a ignomínia de o médico poder pensar que estava num hostel – “estabelecimentos onde nunca pus os pés” – e não num hotel de luxo.
A crónica é excelente, como quase todas as que assina. Deve ser lida pois a história não termina aqui.
Clara viajou depois para a Ásia e a pele continuou reativa, o que a levou a um hospital. Uma experiência que relatou assim: “É mais fácil ser tratado num país da Ásia, desde que se tenha algum dinheiro, do que em Lisboa, onde os hospitais privados se transformaram, por causa do crash do SNS, em hospitais públicos cheios de gente.”
O povo é um incómodo para Clara Ferreira Alves. Gente que, aliás, aos bedbugs prefere chamar percevejos. Bicho de desfavorecidos, amigo de indigentes e habitante de colchões bolorentos. Que doce vingança.