Não consigo entender o que leva um pai ou uma mãe a comprar uma mota a um filho. Compreendo bem a vontade de a ter, de andar na estrada embalado no vento, o magnetismo de uma Harley no asfalto, o impulso de liberdade, a tentação de sermos como Dennis Hopper no seu Easy Ryder, a “pica” da transgressão, claro que sim.
Também sei que há um momento em que os miúdos deixam de o ser, em que passam a ser donos de si próprios, pouco ou nada a fazer quando passam a estar por sua conta e risco.
Agora, um pai ou uma mãe a oferecer uma mota a um filho é uma completa insanidade, é desafiar as sombras, é jogar à roleta russa com o destino. Repare, um em cada quatro mortos na estrada conduzia uma mota – sendo que a proporção de carros é esmagadoramente maior, estima-se que só 3% dos veículos em circulação sejam motociclos, o que torna o risco brutal.
Só nos primeiros seis meses deste ano morreram 53 motociclistas num total de 225 vítimas. Nos últimos dias têm-se somado tragédias.
Na quarta-feira um homem morreu na Ponte 25 de Abril. A 30 de setembro, um jovem morreu na 2ª Circular, em Lisboa. Embateu num poste de eletricidade e teve morte instantânea.
No dia 3 de setembro dois motociclistas não resistiram a acidentes em Monção e em Guimarães. Quatro dias depois, em Alcanena, um embate entre um carro e uma mota deixou o elo mais frágil em estado crítico. E é difícil esquecer a chocante morte de duas médicas portuguesas em Espanha.
Percebo a adrenalina, o poder, a sedução, a magia da velocidade, mas oferecer uma mota a um filho?