Oiço os bombardeamentos numa televisão sem som. As imagens de bairros destruídos, de gente em fuga, de crianças que desaprenderam a chorar por terem gasto a infância… vejo também António Guterres, mais velho e cansado.Há não muito tempo perdi-me no Bairro da Bica. Desci pelos carris de um elétrico parado e travei num velho sapateiro, porventura o último de uma Lisboa que, apesar de tudo, ainda amanhece. Falámos de Guterres, sobre os dias em que passava para tratar sapatos cansados.Éramos felizes e não sabíamos, desabafa David Martins que veio aos 12 anos para a cidade. Nascera numa aldeia do interior de Coimbra, o pai tinha um sonho que verbalizava nas noites difíceis: poder encontrar uma esquina com muitos homens necessitados de graxa. Encontrou o seu lugar e o filho acompanhou-o.. Um dia fez-se à vida. Ficou com uma loja no fundo da Rua da Bica, na parte de baixo do elevador. Há mais de 50 anos que observa o mundo dali - os soldados armados de cravos, os bêbados de todos os tempos, as varinas e os chulos, as crises e as bonanças, a droga e as tempestades, os turistas e as saudades dos amigos que foram morrendo ou fizeram meia dúzia de patacos na venda das suas casas a franceses e brasileiros.Ontem, na minha televisão sem som, António Guterres pareceu-me ainda mais cansado.Lembrei-me por isso do último sapateiro, o David da Bica, que permanece onde sempre esteve, o lugar onde António precisa de voltar para compor as suas meias solas e finalmente descansar.