A Figura do Dia. O Mário já não pertencia aqui

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Parece que trouxe a morte. Estou farto de tantas partidas, de tantos telefonemas que ficaram por fazer, de números que preciso de apagar para não ser assombrado pelo que não fiz.

Mário Zambujal acabara de fazer 90 anos, mas era um miúdo, não sei como explicar bem isto. O mais jovem jornalista que conheci, porventura o último de um tempo que se fez ao caminho antes dele - o “bom malandro” que viveu dentro de uma prosa feita de uma Lisboa que já não existe, de uma grandeza decadente em que só os vencidos contavam: os pequenos ladrões, os bufos, as putas e os chulos, o whisky e o medronho, os matadores e a malta dos jornais que vivia dentro do tabaco e tão rebentados como os inspetores da “Judite” que se deitavam sem cama certa quando a cidade acordava.

Não me passou pela cabeça que pudesse morrer. Os museus não morrem assim e o Mário era um museu a céu aberto.

"Mário Zambujal acabara de fazer 90 anos, mas era um miúdo, não sei como explicar bem isto."
"Mário Zambujal acabara de fazer 90 anos, mas era um miúdo, não sei como explicar bem isto."Reinaldo Rodrigues

Continuava a escrever livros, mas quem o conhece sabe bem que ele era o seu melhor livro. Quando se sentava connosco, sempre amável, só nos restava, só me restava, escutá-lo e imaginar o que se tornou impossível de tornar a ver. Os canalhas passaram a estar vestidos com bugigangas caras e perderam os códigos de honra e o romantismo. Já não há poesia no fundo de um Famous Grouse, os vencidos querem ser vencedores e deixaram de conhecer os escritores e os jornalistas. Nem nós os conhecemos a eles.

Estamos na nossa vidinha, uns mais cómodos do que outros, mas na nossa vidinha. O Mário Zambujal já não pertencia a este mundo.

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