Morreu um desconhecido que tinha poder – o de escutar, o do silêncio, o de conhecer segredos, o de guardá-los, o de tratar bem quem lhe batia à porta, o de ser uma presença invisível. Davide Pinto era chefe de sala do Café de São Bento, restaurante/bar em frente do Parlamento. Das poucas vezes em que lá fui chamava-o de guardião do bife e do maldito Abade de Priscos que me obrigava ao pecado da gula. Davide conheceu toda a gente na política portuguesa. Conversava com ministros, deputados, aspirantes a sê-lo, jornalistas, artistas e engolidores de fogo. Mantinha conversas suspensas que retomava quando o cliente tornava a aparecer, na sua cabeça existiam centenas de gavetas que abria e fechava como se fosse um jogador de xadrez num torneio de simultâneas. . Morreu o chefe que guardava uma parte dos segredos do país. E o segredo do melhor bife de Lisboa e das conversas pelo princípio da madrugada. Já não existem muitos como ele, até os bares e a noite estão em obras ou então fui eu que envelheci sem perceber que há outros lugares onde podemos confiar em alguém que nos serve um whisky de malte num copo baixo, sem gelo. Davide partiu para um outro bar que um dia, quando me aborrecer, descobrirei. Há momentos em que devemos deixar a noite entrar. Abrir a janela de par em par e abraçar todas as sombras e estrelas. E há outros momentos em que devemos fazer o contrário. Fechar todas as janelas e impedir que a penumbra entre no que nos resta. Hoje estou assim.