Quando Nixon assinou, no princípio de 1973, em Paris, a retirada americana do Vietname e a devolução dos prisioneiros de guerra, o mundo festejou o fim da mortandade. Só que esta continuou, ainda com mais sangue, entre os que eram apoiados pela União Soviética comunista e os que recebiam financiamento americano. O Ocidente festejou a paz e a morte deixou de ser notícia – por isso, quando dois anos e meio depois a Embaixada Americana em Saigão foi atacada e os telejornais abriram com milhares de aliados do Sul em desesperada fuga, o mundo pareceu surpreendido. Então a paz não fora assinada?
O que desejo dizer com esta memória distante? Que as guerras são um Mal que perdura para lá do tempo, que atravessam gerações, penalizam quem não imaginamos e envenenam a vida. O que está a acontecer em todos os pontos em que há homens a matar outros homens não se resolverá quando os nossos olhos se comoverem por alguém decretar a paz e o fim das hostilidades. Infelizmente, não funciona assim. Com a guerra nascem fantasmas de morte, mas também, espectros de vida. Em Saigão há dezenas de americanos que hoje, por estranho que nos pareça, continuam a vaguear como se a guerra não tivesse terminado. Gente enlouquecida, viciados em jogo, filhos que se perderam no abismo na procura de pais que não regressaram. O inferno não se apaga. O Diabo não fica mais fraco quando a paz é assinada, é precisamente depois disso, quando esquecemos as preocupações, que ele (ou ela) veste Prada e usa o seu melhor e mais degenerado perfume