A Figura do Dia. O deserto de Marques Mendes e um telefonema

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Um amigo contou-me que, num momento particularmente difícil, um daqueles em que os próximos se afastam como se tivéssemos lepra e o telefone deixa de tocar como antes, recebeu todos os dias uma chamada de Luís Marques Mendes. “Então, está bom? E a família? Muita coragem.”

Todos os santos dias, a horas diversas, lá recebia a mensagem. O meu amigo perguntou-lhe a razão para o fazer tão diligentemente, respondeu-lhe que o fazia por saber o que são os momentos em que a solidão se pode tornar ensurdecedora. No dia em que os equívocos se compuseram e os próximos tornaram a ser próximos, Marques Mendes não mais voltou a ligar.

Gerardo Santos

A estória é verdadeira e peca por defeito. E ajuda a definir o homem cuja derrota política foi estrondosa nas últimas presidenciais. Muitos dos que lhe ligavam antes deixaram de o fazer. Os que dele precisavam por causa do seu comentário semanal tornaram-se mudos e os que o rodeavam na expectativa de que se mudasse para o Palácio de Belém, zarparam para outro horizonte, para outros portos.

Marques Mendes esteve na Tomada de Posse do novo Presidente, despediu-se do seu amigo Marcelo com uma crónica e um abraço, e regressou a casa e ao seu deserto.

Por isso, faço questão de deixar esta mensagem, esta pequena e justa atenção. Caro Luís, meu amigo, está bom? E a família? Muita coragem.

E acrescento mais uma frase: “Não é uma surpresa, para si, que as coisas são o que são, mas não desista do país e de caminhar em direção ao futuro. Amanhã telefono.”

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