A figura do dia. O cromo que falta na caderneta

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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António Lobo Antunes dizia que se pudesse trocar toda a sua carreira literária por uma semana de glória a jogar como ponta de lança do Benfica não hesitaria. Ria-me com a blague, mas dentro da minha cabeça, confesso hoje pela primeira vez, achava que o destino me condenaria a viver no futebol, como jornalista desportivo ou a trabalhar num clube ou na seleção nacional. Passados mais de trinta anos de carreira nunca esse comboio passou nas estradas que frequento.

Ver os jogos do Mundial, ou voltar a colar os cromos na caderneta, é um regresso à infância. Julgo que tive esta conversa, ou outra parecida, com Filipe Pais, uma das melhores pessoas que passaram na minha vida. Foi chefe de gabinete de Pedro Proença durante vários anos, o seu braço-direito na Liga de Clubes, no caminho para a Federação e nos meses em que a nova equipa se instalou na “cidade do futebol”.

Portugal estreia-se esta quarta-feira, dia 17 de junho, no Mundial 2026 frente à República Democrática do Congo.
Portugal estreia-se esta quarta-feira, dia 17 de junho, no Mundial 2026 frente à República Democrática do Congo.MIGUEL A. LOPES/LUSA

Há menos de um ano disse-lhe: Filipe, que maravilha poderes estar no Mundial, acompanhares a seleção, seres parte da caravela. Respondeu-me que só no dia em que chegasse o primeiro jogo com o Congo é que poderia respirar fundo e viver aqueles 90 minutos com a alegria e o privilégio de ali estar. Não aconteceu por lhe ter surgido uma oportunidade irrecusável. Também por amor à família decidiu voltar à terra onde nasceu e saiu da Federação para tristeza de todos os que com eles trabalhavam, a começar pelo presidente. Hoje, dia em que Portugal entra em campo e tudo volta a ser possível, penso no Filipe e em todos os que, não sendo visíveis, nem por isso são menos importantes.

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