Foi a primeira vez que aconteceu em 2000 anos: um papa anunciou, pela sua voz e com o seu corpo à vista da multidão, que está doente. No passado domingo, na Praça de São Pedro, durante a recitação semanal, Leão XIV falou ao mundo como se estivesse a dizê-lo pessoalmente a mim ou a si. Ou a cada uma das pessoas que ali estava. Como se fosse família, como se confiasse em que cada um dos que ouviam, em cada um de nós.
“Tenho um nódulo no pulmão e aceitei a sugestão médica. Farei uma intervenção cirúrgica em breve”. Não foram estas as palavras exatas, mas foi o que nos deixou.
Fiquei surpreendido e comovido. Depois da Magnifica Humanitas, esta foi, para mim, a segunda encíclica do papa Leão – uma epístola de defesa de uma ideia de proximidade, a necessidade de fortalecer a procura da verdade e a confiança, a coragem de se apresentar como um homem, apenas isso e tudo isso, finito, dorido, com medo.
Também para Leão, como para Francisco ou Bento, a morte é uma inevitabilidade e uma incompreensão. Para eles e para nós, lá está. Até ao derradeiro segundo ficaremos todos na dúvida. Até ao último segundo, a maioria de nós, e deles, achará que a morte só poderá chegar amanhã ou na próxima semana.
Foi isto que o papa nos desejou dizer: que caminha na nossa estrada, que não tenhamos medo ou vergonha de sermos todos magnificamente imperfeitos e finitos.
O papa Leão quis dizer-nos que é como nós. Não para que lhe percamos o respeito, mas para que ao ouvi-lo, crentes e não-crentes, possamos respeitá-lo como o primeiro de nós, como o homem que leva a candeia.