Encontrámo-nos algumas vezes, mas almoçámos apenas uma. Estivemos longamente à conversa e ficámos amigos, apesar de nunca mais nos termos voltado a ver. Narana Coissoró deixou passar as chuvas e os trovões e aproveitou a boleia do vento.
Talvez tenha passado por uma última vez no seu bairro de menino em Goa, talvez até aproveitado para atravessar outra vez as ruas de Pangim ou então limitou-se a voltar às noites de estudante em Coimbra ou ao único encontro com Salazar – ele um jovem brilhante e o Presidente do Conselho a fazer-lhe perguntas não sobre as suas altas notas, mas acerca dos seus enormes olhos azuis.
Ri-me quando me contou, mas ri-me mais com a irresistível reação de Indira Gandhi ao vê-lo em Londres, jovem, alto e bonito. Convidou-o para estar noutro lado qualquer, o que Narana se recusou por saber que o Diabo está nos detalhes e quase sempre disfarçado de anjo ou de futuro.
Falámos de Deus, do 25 de Abril, das suas aventuras parlamentares, do doutoramento em Inglaterra, da felicidade enorme de ter sido professor.
Morreu mais uma trave de um tempo feito de combate de ideias, de coragem, de convicção, mas em que adversários e inimigos se respeitavam.
Sempre houve canalhas, perversidade e ajuste de contas, mas a maioria acreditava em ideias, lia livros, sonhava conspirações e arriscava a vida, se disso dependesse a honra.
Narana Coissoró, depois de Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa e Adriano Moreira, era a personificação de um conservadorismo à séria.