A Figura do Dia. Morreu a mais velha ‘Rainha’

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Maria da Conceição esqueceu-se de acordar na manhã deste sábado. No Lar da Misericórdia de São Brás de Alportel bem a tentaram despertar, mas ninguém conseguiu que abrisse os olhos para beber o café de cevada e engolir meia bucha de pão do dia.

Não foram necessários muitos minutos para que a vila soubesse da notícia da morte da mais velha portuguesa. Tinha 113 anos e oito meses.

"Maria da Conceição a quem em Alportel chamavam 'Rainha', a mais velha portuguesa viva que, neste fim de semana, se esqueceu de abrir os olhos e comer meia bucha com marmelada (...)."
"Maria da Conceição a quem em Alportel chamavam 'Rainha', a mais velha portuguesa viva que, neste fim de semana, se esqueceu de abrir os olhos e comer meia bucha com marmelada (...)." FOTO: Santa Casa da Misericórdia de Alportel

Nasceu 20 anos antes de Salazar ocupar São Bento, quatro anos antes de Lenine decretar a Revolução Bolchevique, quase 30 anos antes de Hitler desencadear uma Guerra Mundial e mais de 40 anos antes de Amália cantar pela primeira vez no Olympia.

Nasceu e morreu na sua terra, um dos poucos lugares no Algarve onde nunca existiu praia e mar.

Já era mulher graúda quando os seus pés de trabalho tocaram a areia e viram as ondas pela primeira vez, mas em criança apanhava alfarroba, favas e azeitonas como se tivesse a idade dos que já pareciam velhos nos retratos em dias de festa.

"Não foram necessários muitos minutos para que a vila soubesse da notícia da morte da mais velha portuguesa. Tinha 113 anos e oito meses."

No interior do Barrocal e da Serra do Caldeirão foi o que pôde ser. Casou-se com um vizinho e aposto que os dois tiveram conversas bonitas no Miradouro do Alto da Arroteia, onde se consegue ver o oceano ao fundo.

Ou então não, é o meu romantismo de cidade a insistir em construir castelos para que as estórias sejam mais bonitas do que a realidade de Maria da Conceição a quem em Alportel chamavam “Rainha”, a mais velha portuguesa viva que, neste fim de semana, se esqueceu de abrir os olhos e comer meia bucha com marmelada e um pinguinho de cevada que aceitava com um sorriso que jamais a abandonou.

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