Maria da Conceição esqueceu-se de acordar na manhã deste sábado. No Lar da Misericórdia de São Brás de Alportel bem a tentaram despertar, mas ninguém conseguiu que abrisse os olhos para beber o café de cevada e engolir meia bucha de pão do dia.
Não foram necessários muitos minutos para que a vila soubesse da notícia da morte da mais velha portuguesa. Tinha 113 anos e oito meses.
Nasceu 20 anos antes de Salazar ocupar São Bento, quatro anos antes de Lenine decretar a Revolução Bolchevique, quase 30 anos antes de Hitler desencadear uma Guerra Mundial e mais de 40 anos antes de Amália cantar pela primeira vez no Olympia.
Nasceu e morreu na sua terra, um dos poucos lugares no Algarve onde nunca existiu praia e mar.
Já era mulher graúda quando os seus pés de trabalho tocaram a areia e viram as ondas pela primeira vez, mas em criança apanhava alfarroba, favas e azeitonas como se tivesse a idade dos que já pareciam velhos nos retratos em dias de festa.
No interior do Barrocal e da Serra do Caldeirão foi o que pôde ser. Casou-se com um vizinho e aposto que os dois tiveram conversas bonitas no Miradouro do Alto da Arroteia, onde se consegue ver o oceano ao fundo.
Ou então não, é o meu romantismo de cidade a insistir em construir castelos para que as estórias sejam mais bonitas do que a realidade de Maria da Conceição a quem em Alportel chamavam “Rainha”, a mais velha portuguesa viva que, neste fim de semana, se esqueceu de abrir os olhos e comer meia bucha com marmelada e um pinguinho de cevada que aceitava com um sorriso que jamais a abandonou.