Viveu intensamente e sempre a desafiar a vida. Quando o conheci, no dia em que, por intermédio de Helena Vaz da Silva, me convidou para uma comissão governamental, tinha um casaco de cabedal e uma mota de alta cilindrada à porta da Gomes Teixeira.Entre 2002 e 2005 foi o braço-direito no Governo de Durão Barroso e espantou o país nos seus primeiros dias de ministro ao confessar numa entrevista que tinha descido ao inferno da droga, mas que se salvara com a ajuda dos que nunca o desampararam. A velocidade era para Nuno Morais Sarmento um modo de se sentir livre. Como o boxe, que praticou na juventude, talvez tenha sido um ajuste de contas com a pressão que o obrigava a ser o que desejavam que fosse - a vida era sua, o corpo era seu, os murros também.Era esmagador na brutalidade e terno nos afetos, aliava a esperança e o abismo, a inteligência e o instinto. Poderia ter sido tudo, mas a vida não quis que o fosse - foi o preço que pagou por tanto ter desejado ser o único dono de si próprio.Morreu com um cancro a quem tratou como um amigo próximo, como se o esperasse na sua mais íntima profundeza. Resistiu a dois anos de internamentos, mais de dez operações, infeções generalizadas, um sofrimento no limite do suportável. Mas voltava sempre como o gladiador que nunca deixou de combater pelo direito a ser livre, pela vontade de lutar, até ao último sopro, pelo país em que acreditava.E pela liberdade de ser o que decidisse ser - a mais forte herança que deixa aos seus dois filhos, Francisco e Madalena.