Aquilino Ribeiro, em rodas de amigos, adorava dar Camilo Castelo Branco como exemplo do típico macho lusitano: louco por mulheres, mas feio como mil trovões.
Aquilino também não era o suprassumo da beleza, os escritores são capazes do mais vigoroso orgasmo quando uma estória é boa, e se for indecente e envolver oficiais da mesma confraria, melhor ainda.
Não sei se Camilo era assim tão feio, sobre o resto nenhuma dúvida: o homem não resistia ao chamamento de ninfas, sereias ou de quem lhe calhasse na rifa.
Perco tempo para o que preciso de lhe contar: estreou ontem Memórias do Cárcere e é um filme extraordinário. A partir do livro que Camilo escreveu na prisão quando cumpria pena por adultério, Sérgio Graciano transporta-nos para o universo literário do autor de Amor de Perdição, mas acrescentando um olhar cinematográfico, um ponto de vista que é um retrato cirúrgico do país que somos.
Um filme que é um conto de fadas. Porque o olhar de artista pertence a um realizador que parece ter sido tocado por um feitiço que o transformou, da noite para o dia, num realizador com aspirações a marcar o futuro.
Sérgio Graciano fez filmes medíocres durante mais de 20 anos e, de um momento para o outro, ofereceu-nos o bonito Playback e, sobretudo, esta singular Memórias do Cárcere, um dos mais surpreendentes filmes da história do cinema português – com Albano Jerónimo como Camilo (não podia estar mais favorecido) e Maria João Bastos no papel de Ana Plácido.
Sinceramente, obrigado.