A Figura do Dia: Laborinho devia ser nome de ruas e avenidas

Publicado a

Sei que nas Correntes D’Escritas, por estes dias na bela Póvoa de Varzim, há uma presença ensurdecedora. Há fantasmas que iluminam e ausências impossíveis de esquecer, mas Laborinho Lúcio é uma outra coisa, é uma das poucas pessoas capazes de provocar unanimidade - pelo brilhantismo, pelo conhecimento, pelo sentido de humor, pela presença, pela enormíssima capacidade de fazer pensar e de nos oferecer a possibilidade de desejarmos mais da nossa vida.

Laborinho adorava ir às Correntes. Sentia-se em casa entre escritores, editores, livreiros e a Manuela e o Sílvio, que dão gás a um dos encontros culturais mais esperados do ano. Tinha ideias para concretizar, livros por escrever e espetáculos por imaginar.

Álvaro Laborinho Lúcio.
Álvaro Laborinho Lúcio.Steven Governo / Arquivo DN

Quem viu a sua interpretação da figura de Manuel Lopes, mítico bibliotecário que parecia fugido de um livro de Dickens, quem assistiu a essa peça feita exclusivamente para o festival - na companhia dos maravilhosos Rui Spranger, Raquel Patriarca e Luís Ricardo Duarte - nunca esquecerá a profunda comoção da sua presença.

Também a mim me faz falta. E a todos os juízes e procuradores que ajudou a formar no Centro de Estudos Judiciários. Ou aos seus amigos que o recebiam como alimento de sobrevivência de alma. E ao país que insiste em tratar ausências com comprimidos para o esquecimento.

Proponho que Álvaro Laborinho Lúcio seja nome de rua na Póvoa, o lugar dos escritores órfãos deste sábio que um dia, há muitas décadas, saiu do seu bairro de pescadores da Nazaré para domar os mares do mundo.

Diário de Notícias
www.dn.pt