O homem de que nos despedimos em notícias breves foi mais do que um jornalista de referência. Joaquim Letria foi um dos maiores, mas quando o penso, quando o tento definir encontrando palavras justas, é-me difícil fugir à revolução que nos trouxe a sua voz, o seu olhar, o seu modo de perguntar, as imperfeições que acentuavam a sua fortíssima presença.
Letria não foi apenas uma estrela, ele era a estrela. Sentava-se com os grandes políticos com a segurança de quem era um entre iguais. De repente, tínhamos no nosso país, depois de mais de 40 anos em ditadura, um jornalista que parecia de um outro mundo.
Inigualável o dia em que entrevistou Miguel Cadilhe. O ministro das Finanças faltara à entrevista e Joaquim Letria fez perguntas a uma cadeira vazia. Mais inigualável ainda a sua moderação no mais célebre debate da história da construção da democracia portuguesa, o que opôs Soares a Cunhal, poucos dias antes do 25 de Novembro de 1975.
Indomável, insubmisso e livre, inventou o Tal e Qual que chegou a vender mais de 100 mil exemplares, inventou os “apanhados” em Portugal, inventou os talk-shows noturnos e foi porta-voz de Ramalho Eanes em Belém.
Joaquim desapareceu há já vários anos das nossas vistas. Sentia-se sozinho, desacompanhado num mundo sem imaginação e rasgo.
Partiu aos 82 anos, mas já despachara há muito tempo as malas para estar de mãos livres assim que fosse chamado. Não teve, por isso, necessidade de fazer o check-in, chamaram-no e ele foi… entusiasmado com o próximo desafio.