Compreendo que alguns humoristas estejam a cancelar a participação no festival que trará o genial Seinfeld a Portugal. Percebo-os, mas não deixa de ser uma fantochada.
Em primeiro lugar, por ser conhecida a militância da estrela americana pela causa israelita – após o ataque do Hamas, assumiu a sua posição com clareza. O facto era conhecido quando toda a gente aceitou o convite.
Em segundo lugar, por ser detestável qualquer cancelamento por motivos políticos, culturais, históricos ou sociológicos. Sabemos como começa, mas nunca como acaba quando moralistas prenhes de certezas, de direita e de esquerda, entram em jogo.
Vamos partir do princípio de que o homem é um pulha. Um assassino moral, um defensor do inominável. Vamos deixar de o ver e ser condenados por cada gargalhada que dermos ao ouvi-lo? Deixar de admirar La Guernica por Picasso bater nas mulheres e ser um tipo horrendo?
Queimar o Esplendor na Relva ou o Elétrico Chamado Desejo por Elia Kazan ser um bufo? Ostracizar Heidegger ou Dalí por terem simpatizado com o nazismo? Impedirmos Kevin Spacey de respirar por gostar de apalpar o rabo de jovens figurantes durante as filmagens? Deixar de ler Luiz Pacheco por ser pedófilo? Céline por ser infame, Woody Allen por ser moralmente corrupto, Degas por ser o mais imprestável dos homens?
Não suporto dois pesos e duas medidas. Detesto o paroquialismo. E separo o artista do que o artista é ou pensa. Se não o fizesse metade da minha biblioteca teria de ser queimada.