A Figura do Dia. Ir à bola com Montenegro

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Caro primeiro-ministro, reza a lenda que Nixon, já depois de Watergate, quando se estava a despedir da Casa Branca travou o passo na fotografia de Kennedy e desabafou: “Quando olham para ti, veem aquilo que gostariam de ser, mas quando olham para mim, veem aquilo que são.” É uma frase inventada por Oliver Stone a partir de uma inquestionável verdade: os líderes que ficam nunca são os que se comportam como a maioria, mas os que para a maioria são um modelo inatingível.

"É compreensível que tenha atravessado três vezes um oceano para ir à bola – (...). E a maioria dos portugueses empenharia os faqueiros para ter estado na América, precisamente os mesmos que não lhe perdoam por ter ido."
"É compreensível que tenha atravessado três vezes um oceano para ir à bola – (...). E a maioria dos portugueses empenharia os faqueiros para ter estado na América, precisamente os mesmos que não lhe perdoam por ter ido." FOTO: Miguel A. Lopes /Lusa

O princípio foi posto em causa pelos que acreditam que os ventos mudaram. Já não é importante o que se pensa, mas a forma como se reage aos estímulos de cada dia, a cada uma das danças que a pista mediática vai exigindo. Se a malta está virada para o tango, dança-se o tango, mas amanhã pode ser bolero, ballet de pontas, breakdance ou pasodoble. É indiferente qual a dança em que se acredita, o importante é bater o pé ao compasso das audiências.

"Porque o senhor não é a maioria, é alguém que, para ser respeitado, precisa de parecer ser o que nós não somos. Não votamos em quem nos acompanha nas sardinhadas, mas nos que zelam pelo nosso colesterol."

Estou a maçá-lo com o que já antecipa. É compreensível que tenha atravessado três vezes um oceano para ir à bola – o que eu daria para sentir o frio na barriga, o nervoso miudinho, o coração a acelerar com a possibilidade de um golo numa baliza ou na outra. E a maioria dos portugueses empenharia os faqueiros para ter estado na América, precisamente os mesmos que não lhe perdoam por ter ido.

Porque o senhor não é a maioria, é alguém que, para ser respeitado, precisa de parecer ser o que nós não somos. Não votamos em quem nos acompanha nas sardinhadas, mas nos que zelam pelo nosso colesterol.

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