Nunca na minha vida pensei, mesmo nos meus mais profundos e insanos delírios, que um dia veria os setores mais conservadores da sociedade portuguesa defenderem com gutural e comovente paixão o General Vasco Gonçalves.
Pensava que já tinha visto tudo: um porco a andar de bicicleta, um restaurante em que a especialidade é sushi de leitão, homens e mulheres que fazem amor com árvores e galhos de murta, telemóveis a substituir famílias, pessoas a enriquecer com dinheiro que não é dinheiro ou Donald Trump rebentar com a América, mas isto?
Não estava preparado para ver Paulo Núncio, André Ventura e toda a bancada do PSD a defender a “Lei da Manifestação” consagrada em agosto de 1974, antes mesmo do nascimento da Constituição, pela implacável e leninista mão do gonçalvismo. A memória do “companheiro Vasco” não merecia tal aleivosia.
Então o mais detestado de todos os revolucionários, o mais perseguido e ostracizado, o que toda a direita acusava de estar por trás de todos os golpes, de todas as ameaças, de todos os riscos, é agora usado como escudo protetor contra as acampadas?
Pode mexer-se em tudo, mas não numa lei feita há mais de 50 anos pelo “General do PREC”, pelo “camarada Vasco”, pelo grande “Timoneiro”, pelo “Vasco, coração de ferro”?
O que se seguirá? A proposta de um busto perto do Patriarcado? Ou o PSD arriscará uma Reforma Agrária musculada ou um plano agressivo de nacionalizações que contemple tudo o que mexa?
Não percebo nada disto, expliquem-me como se eu fosse uma criança.