A Figura do Dia. Feios, porcos e maus

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O mundo como eu o conhecia está a morrer. Os valores em que acredito perderam relevância. O poder é exercido por homens indecentes e amorais. O mal ocupou o tabuleiro de jogo e não há incenso ou rezas capazes de afastar ogres com um bafo a enxofre e agonia.

Tenho quatro filhos, o meu otimismo foi sempre exacerbado e inconsciente, mas quando o penso, quando os penso nessa sua sede e fome de futuro e eternidade, preciso de encontrar uma forma de combater a profunda descrença no que vejo ou pressinto.

As guerras fazem parte do nosso menu. Algumas foram necessárias, em algumas o sangue derramado permitiu o progresso ou o fim do caos ou das ameaças de apocalipse. O jogo continua e só terminará quando o último de nós fechar a porta, só que agora é um combate sem regras e imprevisível.

EPA / Abedin Taherkenareh

Já não há bons e maus. Justos e ímpios. Batoteiros e honestos. Progressistas e fanáticos. Democratas e fascistas. No tabuleiro que agora nos prende a atenção é tudo mau, são todos horríveis, não há ponta por onde se possa pegar, não há gente ou ideias em que possamos confiar ou por quem valha a pena morrer.

Os fanáticos religiosos xiitas têm de ser travados - quem pode duvidar da premissa? Mas quem os está a travar é menos fanático e menos perigoso? Se colocarmos cada uma das forças numa mão, que mão preferimos? A que está contaminada com autocratas que matam, torturam e aterrorizam em nome de Deus? Ou a que está ocupada por loucos varridos e criminosos de guerra? Que mundo é este? Lutamos por quem? Pelo quê? Contra quem?

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