Mário Centeno tem toda a razão: há uma percentagem grande do eleitorado que já não tem em quem votar. No dia em que a direção do PS resolveu manter a abstenção do OE, já depois de a PSP, a mando do Governo, afugentar à bastonada uma manifestação pacífica de milhares de pessoas, matou qualquer linha de coerência com a sua carta de princípios. O pragmatismo não pode ser mais importante do que a identidade do que se defende, do que se é.
Em segundo lugar, lamento o meu erro de análise em relação a Luís Neves. As intervenções do ministro e a sua desmedida arrogância, a forma como ultrapassou todos os limites e o modo como vai desafiando o abismo com passos para a frente, é um fenómeno nunca visto na história de mais de meio século de democracia. Que poder tem este homem para se impor assim ao primeiro-ministro? É porque Montenegro o deseja ou por estar amarrado a um compromisso? De uma maneira ou de outra, tornou-se impossível o Governo continuar até ao fim da legislatura, resta saber quanto tempo durará.
Em terceiro lugar, é de um enorme surrealismo pensar nos polícias que erguem o seu bastão contra multidões não-violentas a gritar palavras de ordem pelo direito a ter uma casa – quando cada um daqueles homens armados chega ao seu apartamento por pagar, quando se deitam numa cama em casa dos pais ou têm de pegar no carro e percorrer 50 ou mais quilómetros até conseguirem pôr as chaves à porta de uma periferia pobre, o que pensarão sobre esta coisa estranha de partirem cabeças e marcarem o corpo a quem está na mesma situação?