A figura do dia: Cristiano Ronaldo

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Cristiano Ronaldo é luminoso e sombrio. É a árvore mais florida e o eucalipto que seca tudo à volta. É o maior goleador da história e um dos melhores de sempre, mas utilizou o seu estatuto para alimentar ditadores ou derrubar quem se lhe atravessou à frente. O seu patriotismo é incontestável e a sua arrogância lendária. Solidarizou-se com jogadores e treinadores, mas deixou cair os que o colocaram em causa. Vive em função dos recordes e da eternidade, mas não reconhece os seus limites. É grandioso e patético. Sublime e personagem trágico. Herói e vilão.

É difícil não o idolatrar, mas também não o detestar. É maior do que a vida, mas as suas irmãs esforçam-se para que não nos esqueçamos de que não é tão grandioso e admirável como gostaríamos que fosse. Envelheceu bem, mas não sabe que envelheceu. Aproximou-se da perfeição, mas cegou na tentação de Ícaro. Geriu bem a carreira, mas não saiu a tempo, a mais difícil de todas as provações.

FOTO: EPA/PAULO NOVAIS

Salazar continuou a morar em São Bento quando outro já lhe ocupara o lugar. E Mário Soares, depois de quase toda a gente lhe pedir para não se candidatar a umas presidenciais fora do prazo, fê-lo contra os avisos e foi humilhado nas urnas. Sabemos o que aconteceu a Pinto da Costa e também ao egocêntrico Sebastião que acreditou que os mouros se ajoelhariam assim que o vissem a desembarcar em Alcácer Quibir. É por tudo isto que Cristiano merece não acabar sem um último jogo em que possa ser aplaudido como o mais extraordinário de todos os filhos e paradoxos da Pátria.

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