A figura do dia. Como Ventura vê Passos Coelho

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Há um equívoco quando se analisa o modo como Ventura vê Passos Coelho. Há umas semanas, quando foram “apanhados” numa encenada conversa de circunstância, jornalistas e comentadores correram atrás de uma cortina de fumo – o homem estava embevecido com Passos, parecia um cordeirinho de Deus disponível para integrar o rebanho do grande líder e até, se fosse preciso, a usar um guizo para que não se perdesse nas montanhas de pasto.

"Neste momento, não há qualquer garantia de que Ventura tenha menos votos do que Passos".
"Neste momento, não há qualquer garantia de que Ventura tenha menos votos do que Passos".Álvaro Isidoro/Global Imagens

Já não estamos aí. Passos precisa hoje mais de Ventura do que este de Passos. Até pode ser que o ex-primeiro-ministro reconquiste o PSD, ganhe eleições e forme governo com Ventura como vice. Se tal suceder, o presidente do Chega voltará ao plano inicial. Porém, neste momento, não há qualquer garantia de que Ventura tenha menos votos do que Passos e, mais importante, é dono do seu próprio rebanho e de um exército de bem mais de um milhão de descamisados, ressentidos, mas também de gente que o vê como capaz de oferecer uma alternativa.

Ventura já não é o homem que pedia licença para se sentar à mesa do político de quem tinha a fotografia na secretária. Tem o poder na cabeça, foi ao deserto e deixou-se tentar por uma ambição que mata lealdades, memória ou escrúpulos. Fará o que for preciso para que o desígnio que acredita ser o seu, se cumpra. Passos Coelho é um instrumento, uma carta que tem no seu naipe, só não a usará se tal não for possível, se tiver de, como Lenine, dar um passo atrás para depois acelerar dois à frente. Lamento dizê-lo, mas Ventura só olha embevecido para si próprio.

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