Como poderia ser antissemita quando tantos judeus arriscam a vida no combate contra o massacre de inocentes e pelo direito de seres humanos poderem morar nas terras onde nasceram? Como posso ser atacar os judeus quando tanto me comoveu a coragem de Yuval Abraham e Rachel Szor, realizadores de “Naza” e “No Other Land”, documentários que provaram o quanto Israel mergulhou na vergonha? Como não admirar os que se revoltam por uma ideia de bem, de bondade, de pão partilhado? Gente que coloca em causa os privilégios para não ficar refém da sua consciência – dezenas de organizações de judeus contra-a-corrente, pessoas que no terreno arriscam para levar comida e água a quem tem sede e fome, intelectuais como Chomsky e Judith Butler, diplomatas como Daniel Levy, realizadores e atores como Jonathan Glazer ou Joaquin Phoenix. Não esqueço um dos meus escritores preferidos, o maior dos romancistas israelitas, David Grossman que, tendo perdido um filho em Beirute, classifica como genocídio o que está a suceder longe dos nossos olhares.
Sou um admirador de Israel e dos judeus. Da música e dos poetas, dos cientistas e da democracia, da história e da língua, da gastronomia e das cidades, da identidade e do orgulho. Por sê-lo, choca-me mais intensamente o bafo a enxofre e morte que tresanda no executivo de Netanyahu. E não, não entrei em contradição por ter definido como patético o boicote ao genial e amoral Jerry Seinfeld. O combate não se faz a partir da recusa ou do cancelamento, mas da coragem e do confronto de ideias. Sempre.