Quando era miúdo fascinava-me a figura de Abraão – como era possível que alguém estivesse disponível, mesmo em nome de Deus, a sacrificar o seu único filho? Sabemos como termina a estória… Deus, no último suspiro, fez surgir um cordeiro que foi sacrificado na vez de Isaac.Este é, simplificando, o tronco comum do Judaísmo, do Cristianismo e do Islamismo, as religiões monoteístas. A partir de Abraão os rios dividiram-se e os ventos passaram a espirrar em direções opostas, mas o “Pai dos Povos” é indiscutível para todos os que há mais de dois mil anos se odeiam tão visceralmente, quanto Caim e Abel..Os Islâmicos celebraram em Meca, no final de maio, o dia em que Abraão, conhecido no Alcorão como Ibrahim, mostrou ao mundo a sua profunda devoção a Deus. A peregrinação anual à cidade sagrada terminou com a morte de milhares de animais oferecidos a Alá como prova de humildade e desapego.Sacrificam-se vacas e bois, cabras, ovelhas e camelos, a mais poderosa entre todas as dádivas. Os camelos sacrificados não podem estar doentes, subnutridos ou ser demasiado jovens. O animal é golpeado no pescoço, o lugar onde a faca afiada encontra as suas artérias vitais.."Sacrificam-se vacas e bois, cabras, ovelhas e camelos, a mais poderosa entre todas as dádivas. Os camelos sacrificados não podem estar doentes, subnutridos ou ser demasiado jovens.".Nos matadouros de Meca, durante os três dias de sacrifício, trabalham 25 mil pessoas. Cada um dos matadores diz as palavras sagradas no instante preciso em que a lâmina encontra o seu destino.Em Meca sacrificaram-se este ano mais camelos do que há memória – a guerra também passou por aqui, pela carne que se fez ao caminho para enganar a fome dos que perderam a terra.