O que vou escrever a seguir pode chocar algumas pessoas, mas foi o mesmo que arrisquei num almoço, em 2004, em casa de Adriano Moreira. Dirigia um jornal diário, A Capital, e o professor convidou-me para ser testemunha de um encontro de amigos. No almoço estiveram Mário Soares, o embaixador de Cabo Verde em Lisboa, Onésimo Silveira, e, tenho ideia, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Victor Borges.A ideia era simples: se a Turquia podia candidatar-se à União Europeia, abria-se um espaço político efetivo para que Cabo Verde ambicionasse ser também um Estado-membro de pleno direito..“Quando ganhei confiança abri a boca e acreditei que provocaria uma reação: 'Para mim, não há nenhum cabo-verdiano que não seja português e nenhum português que não seja cabo-verdiano.' Para meu pasmo, ninguém refutou.”.De um ponto de vista geoestratégico tal poderia ser do interesse da Europa, afinal se a Turquia representava uma porta de ligação para a Ásia, Cabo Verde poderia ser uma via de entrada para África. Além do mais, os cabo-verdianos tinham a rara particularidade de serem do mundo, verdadeiramente únicos na sua pluralidade, na sua mestiçagem.Percebi a ligação de profunda amizade entre Onésimo Silveira, Adriano Moreira e Mário Soares. Quando ganhei confiança abri a boca e acreditei que provocaria uma reação: “Para mim, não há nenhum cabo-verdiano que não seja português e nenhum português que não seja cabo-verdiano.” Para meu pasmo, ninguém refutou..Passaram 20 anos, os protagonistas partiram quase todos, mas desde esse dia que não há assunto: Cabo Verde é mais do que um país irmão, somos parte integrante da mesma Nau Catrineta. Por isso, Portugal juntou-se a uma só voz para celebrar a epopeia de Vozinha e de todos os tubarões azuis.