A II Temporada de Ruído incomoda. E faz bastante mais do que apenas isso: indigna, revolta, indispõe e escandaliza.
Não consigo sorrir no sketch do padre pedófilo com Jesus Cristo na cruz, não consigo esboçar uma reação ao ver o sacerdote a utilizar a hóstia como ritual sexual.
Como não me dá para rir quando um pai e uma mãe são confrontados pelo diretor de turma com a estupidez do seu filho. Ou com a criancinha que compara o prazer que lhe dá matar gatos com a volúpia de estropiar cães.
Ou com o menu para piços ou com a sátira aos programas televisivos da tarde ou com o campo de treino para criar fascistas ou com uma visita guiada a uma exposição de quadros cancelados por motivos que não são aceitáveis para a elite.
Nada me faz rir. Quase tudo me incomoda, me revolta, me indigna, me indispõe e escandaliza. E é precisamente por isso que é um programa extraordinário. É precisamente isso que distingue aquilo que fica do que é consumido como pastilha elástica.
Ruído é de uma enorme coragem. Porque a democracia está soluçante, não problematiza, não cria pontes de entendimento, não vive para lá da superfície e de uma polarização que reduz seres humanos a macacos amestrados.
A arte – volto à arte – não vive sem inquietação, sem transgressão, sem agredir quem lê, ouve ou vê. Bruno Nogueira não está aqui para ser amado, mas para nos forçar a porta de casa, para nos assaltar e violentar as certezas.
Apeteceu-me cancelá-lo quando o vi no corpo daquele padre sinistro, mas isso disse sobre mim, não acerca dele. Eis um criador, dos pés à cabeça.