Maricarmen ficará na história como um símbolo, mas receio que a glória de o ser valha de pouco. Morreu triste, fora da sua casa, expulsa do bairro que era pobre quando ela, menina e moça, foi para lá com os pais.
Tinha o sonho de encontrar um amor e uma profissão. Foi secretária durante meio século, mas na viagem não encontrou um par. Chorou de alegria e tristeza, de sonho e desilusão, lamentou mortes e celebrou nascimentos, tudo ali num bairro de Ibiza travestido num lugar de bem-nascidos e novos-ricos.
Tinha 87 anos. Viveu 72 naquela casa. Ali cresceu, ali viu os pais e o irmão morrerem, ali envelheceu, ali criou o seu refúgio, feito de cantos e recantos, de sombras e amigos imaginários com quem falava como se fossem gente. Ali ficava com a televisão ligada para ouvir vozes e palavras, vida a acontecer. E ali recebeu a notificação de despejo de um fundo especulativo.
Quase 90 anos, mais de 70 na casa, e agora para onde iria? Onde morreria? Ficaria a viver na rua? Deixou-se cair, quis desistir, mas ouviu os gritos na calle, o povo a revoltar-se por ela. Agradeceu, mas o corpo já não lhe obedecia, a tristeza quebrara-lhe os ossos e entorpecera-lhe os músculos.
Saiu em ombros para o hospital, mas a pressão foi tanta que a imobiliária recuou. A notícia foi-lhe dada pelos médicos: quando ficasse melhorzinha poderia voltar a casa, seria sua até ao fim.
Só que a tristeza ocupara todas as divisões do seu corpo. Foi demasiado tarde. Morreu nesta quarta-feira, eram sete e meia da tarde e as hienas brindaram a isso.