A tragédia do Elevador da Glória foi fatal para 16 pessoas. E continuam a ser terríveis os estragos provocados pelos estilhaços – do ponto de vista político, mas também na convicção de que estamos por nossa conta e risco. É de ficar de boca aberta de espanto, mesmo que dificilmente nos espantemos com alguma coisa, com as alegações de contestação da Fidelidade a um pedido de indemnização por parte da família de uma das vítimas.
A estória foi comentada por estes dias. Ana Paula Lopes ainda não fizera 50 anos. Trabalhava na Santa Casa e por ela passavam os pedidos de adoção de crianças órfãs ou em risco. Seguia os processos um a um e comprometia-se a encontrar as melhores soluções para cada miúdo a quem a vida desasara – um anjo em vida.
Morreu esmagada e o pai e a filha menor pediram 125 mil euros à seguradora que, em tribunal, refutou assim: “Decorreram cerca de 33 segundos desde a preparação da viagem, 20 segundos desde o início do movimento e mais cerca de 2 ou 3 segundos até à imobilização total. Tal significa que o sofrimento da vítima teve uma duração inferior a um minuto.”
O presidente da Fidelidade pediu desculpa e lamentou os argumentos, mas o tema é outro: onde nos tornámos tão miseravelmente canalhas, mesquinhos e amorais?
Tem sido brutal a capacidade de ir mais abaixo no ranking da lama e o pior é que, quase aposto, ninguém percebeu, naquele gabinete jurídico, onde raio estava o problema de quantificar o sofrimento de um ser humano que perdeu a vida de um segundo para o outro.