Paula Pinto Pereira é arguida e responderá em tribunal pelo crime de usurpação de funções. Poderá ser condenada a 24 meses de prisão efetiva por, durante 36 anos, ter dado aulas de Matemática em várias escolas públicas sem ser licenciada ou ter qualquer habilitação para o fazer.
A professora que não o é, tendo-o sido durante décadas, coordenou a escrita de manuais escolares, orientou estágios e planos curriculares de Matemática, dirigiu turmas e empenhou-se na missão de formar alunos e influenciar colegas.
Aparentemente, foi o ex-marido que a denunciou. Após uma longa relação separaram-se em 2021 e o cavalheiro, despeitado e vingativo, abriu a boca para que ela pagasse, com língua de palmo, o insulto de o ter deixado – típico nas ganadarias lusitanas, se não és para mim, não és para ninguém… nem para a escola pública.
Vamos lá a ver e sem ironia. Simpatizo com a professora. Tanta gente que rouba, maltrata e é mesquinha, tantos crápulas que nos passam pelo estreito e tantas desgraças de que somos testemunhas que, sinceramente, não consigo antipatizar com uma mulher que engana meio mundo para poder ensinar Matemática a miúdos.
Alguém que forja um currículo para dar aulas, que durante quase 40 anos assume as dores de uma profissão maltratada e mal paga, deveria ser homenageada com um “moinho de vento” que nos lembrasse Quixote.
Cara Paula, se quiser, testemunharei no seu julgamento. Direi ao juiz que a sua história é um poema. A senhora merecia ser condecorada com uma comenda da República, isso sim.