A Figura do Dia. A professora de Matemática

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Paula Pinto Pereira é arguida e responderá em tribunal pelo crime de usurpação de funções. Poderá ser condenada a 24 meses de prisão efetiva por, durante 36 anos, ter dado aulas de Matemática em várias escolas públicas sem ser licenciada ou ter qualquer habilitação para o fazer.

A professora que não o é, tendo-o sido durante décadas, coordenou a escrita de manuais escolares, orientou estágios e planos curriculares de Matemática, dirigiu turmas e empenhou-se na missão de formar alunos e influenciar colegas.

"Paula Pinto Pereira é arguida e responderá em tribunal pelo crime de usurpação  de funções. Poderá ser condenada a 24 meses de prisão efetiva por, durante 36 anos, ter dado aulas de Matemática em várias escolas públicas sem ser licenciada ou ter qualquer habilitação para  o fazer."
"Paula Pinto Pereira é arguida e responderá em tribunal pelo crime de usurpação de funções. Poderá ser condenada a 24 meses de prisão efetiva por, durante 36 anos, ter dado aulas de Matemática em várias escolas públicas sem ser licenciada ou ter qualquer habilitação para o fazer." FOTO: Natacha Cardoso / Global Imagens

Aparentemente, foi o ex-marido que a denunciou. Após uma longa relação separaram-se em 2021 e o cavalheiro, despeitado e vingativo, abriu a boca para que ela pagasse, com língua de palmo, o insulto de o ter deixado – típico nas ganadarias lusitanas, se não és para mim, não és para ninguém… nem para a escola pública.

Vamos lá a ver e sem ironia. Simpatizo com a professora. Tanta gente que rouba, maltrata e é mesquinha, tantos crápulas que nos passam pelo estreito e tantas desgraças de que somos testemunhas que, sinceramente, não consigo antipatizar com uma mulher que engana meio mundo para poder ensinar Matemática a miúdos.

"A professora que não o é, tendo-o sido durante décadas, coordenou a escrita de manuais escolares, orientou estágios e planos curriculares de Matemática, dirigiu turmas e empenhou-se na missão de formar alunos e influenciar colegas."

Alguém que forja um currículo para dar aulas, que durante quase 40 anos assume as dores de uma profissão maltratada e mal paga, deveria ser homenageada com um “moinho de vento” que nos lembrasse Quixote.

Cara Paula, se quiser, testemunharei no seu julgamento. Direi ao juiz que a sua história é um poema. A senhora merecia ser condecorada com uma comenda da República, isso sim.

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