A Figura do Dia. A mulher de Ricardo Salgado

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Ricardo Salgado não será preso, mas foi condenado e desonrou (talvez para sempre) a família Espírito Santo. Prejudicou milhares de pessoas, gente que tudo perdeu por ter sido enganada. Usurpou o Estado, influenciou perversamente pessoas e instituições em seu benefício, não teve escrúpulos e a ganância foi o seu modo de vida. Particularmente chocante pois nasceu carregado de ouro e tinha a responsabilidade de um apelido que é parte da história do país nos últimos quase 200 anos.

"Nesta tragédia impressionou-me também a força da sua mulher, Maria João Salgado. A coragem de dar a cara e o modo como pegou nas rédeas e enfrentou os obstáculos, foram surpreendentes. Até por o ter feito com dignidade e era pouco óbvio que o conseguisse."
"Nesta tragédia impressionou-me também a força da sua mulher, Maria João Salgado. A coragem de dar a cara e o modo como pegou nas rédeas e enfrentou os obstáculos, foram surpreendentes. Até por o ter feito com dignidade e era pouco óbvio que o conseguisse." FOTO: Arquivo / André Kosters / Lusa

Não cumprirá pena e ainda bem – o Estado deve zelar, em qualquer circunstância, pela dignidade humana. Se Ricardo Salgado fosse preso tal contentaria apenas a sede coletiva de vingança, a justiça popular não pode ser aplicada sob pena de nos matarmos uns aos outros.

Sou insuspeito de simpatia por Salgado, corporiza o pior do poder – os que nascem ricos, assim como os que são eleitos com o voto popular, têm especiais responsabilidades perante a comunidade. Quando traem a confiança, e o fazem sistematicamente, não merecem perdão.

"Maria João não desabou, pelo contrário. Foi a única que se manteve de cabeça erguida. O meu respeito."

Nesta tragédia impressionou-me também a força da sua mulher, Maria João Salgado. A coragem de dar a cara e o modo como pegou nas rédeas e enfrentou os obstáculos, foram surpreendentes. Até por o ter feito com dignidade e era pouco óbvio que o conseguisse.

Na maioria dos casos, as pessoas desabam, sobretudo quando viveram uma vida na sombra de um privilégio que, regra geral, entorpece quando são tocadas por tragédias. Maria João não desabou, pelo contrário. Foi a única que se manteve de cabeça erguida. O meu respeito.

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