A figura do dia: A morte do Boavista

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

Publicado a

Penso muitas vezes no Boavista. No que sentem os boavisteiros, na orfandade de alguém que nasceu e cresceu com um clube e deixa de poder gritar golo, de sofrer aos fins-de-semana, de pensar nos jogadores e adversários quando vai passear o cão ou antes de adormecer, de comprar o jornal ou ver as notícias no telemóvel à espera de novidades. Não é um clube qualquer, fez ontem 25 anos que foi campeão nacional, lembram-se?

O Boavista tem muitos milhares de adeptos. Ainda se reúnem para desabafar, procurar soluções e abraçarem-se. Talvez seja mais fácil de entender se nos pusermos no seu lugar, imagine se fosse com o Benfica, com o FC Porto ou com o Sporting? O que fariam ao amor que não pode ser transferido para mais lado algum? Seria como na pandemia, o futebol ou o desporto ficaria em pausa, mas para sempre, como um vírus que nos obriga a partir para uma outra viagem ou a enfrentar o deserto à procura de um oásis.

O Boavista foi fundado em 1903.
O Boavista foi fundado em 1903.DR

Nasceu em 1903, há bem mais de um século. Uma família inglesa, dona de uma fábrica têxtil, desafiou os empregados a inscreverem-se para jogar à bola, o que era uma excentricidade. Uns anos depois, os operários revoltaram-se por desejarem ver os jogos que os ingleses insistiam em marcar para os sábados, dia de trabalho. O Boavista nasceu dos patrões, mas foi tomado pelos trabalhadores. Uma metáfora para que ninguém desista da luta. Em nome da história, das noites gloriosas do Bessa, dos jogadores que ali foram formados, o Bruno Fernandes, o João Vieira Pinto, o Nuno Gomes, o Petit e tantos outros. A morte não pode ser uma opção.

Diário de Notícias
www.dn.pt