Há violência nas ruas, mas dentro de casa é pior. Todos os dias, polícias são chamados em socorro de vítimas domésticas, mulheres na larguíssima maioria das vezes. Há gritos desesperados em casas de norte a sul, crianças traumatizadas, espancamentos, humilhações, brutalidade psicológica, chantagem. Um desespero absolutamente democrático, por tocar novos e velhos, pobres e ricos, analfabetos funcionais e catedráticos.
Impressiona-me o regresso em força do culto do machão. Do homem que é dono da mulher, que pode pôr e dispor se achar que ela, em algum instante, olhou para um outro como não olha para ele.
Deve haver um mistério psicanalítico ainda maior à volta desta necessidade da posse masculina, de medir a pila e de viver em função dessa animalidade de bicho cuja essência da vida é não ser corno.
Há umas semanas um homem foi condenado a nove anos de prisão por um coletivo de juízes. No parque de estacionamento do Estádio de Alvalade esfaqueou uma mulher 150 vezes. Fê-lo na cabeça, no tronco, nos braços e na cara de alguém que nem sequer conhecia bem. Não contente com isso pontapeou-a na cabeça e ainda feriu uma testemunha.
No julgamento foi provado que a loucura do homem de 28 anos aconteceu por ela o ter bloqueado depois de o conhecer através de uma plataforma de encontros. Ela não morreu, mas nove anos?
No primeiro semestre morreram 13 pessoas por violência doméstica. No ano passado, 25. Cerca de 1400 mulheres e crianças estão em casas protegidas e longe das vistas de maridos e pais despeitados.
Metade dos homens que matam dizem que o fizeram por amor. Internem-nos e deitem fora a chave.