A figura da semana. As lágrimas no Parlamento

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

Publicado a

É uma das imagens mais fortes do ano político, um dos momentos que ficam para a história do sindicalismo e da democracia – pelo inesperado, pela carga simbólica, pelo paradoxo. Na literatura, os vencidos são sempre mais valiosos do que os vencedores, a falha é mais interessante do que é certinho e imaculado. Por isso, ver Tiago Oliveira, secretário-geral da CGTP, a chorar devolveu-me a capacidade de ver beleza onde ela é mais difícil de encontrar. Basta-nos olhar para aquelas pessoas para sentir o peso das suas convicções. Podemos recusá-las, mas em nenhum momento acusá-los de não acreditar nas ideias que defendem – e o contraste é tremendo entre as suas caras, forjadas nas fábricas e na dificuldade, e as de quem, de fato e gravata, estava a aprovar o seu destino.

"Tiago Oliveira parece saído de um livro de Steinbeck. Pertence a um mundo que já não existe, é filho de um passado onde as regras eram forjadas no tempero do aço e no fortalecimento da consciência ideológica do proletariado."
"Tiago Oliveira parece saído de um livro de Steinbeck. Pertence a um mundo que já não existe, é filho de um passado onde as regras eram forjadas no tempero do aço e no fortalecimento da consciência ideológica do proletariado."Paulo Spranger

Tiago Oliveira parece saído de um livro de Steinbeck. Pertence a um mundo que já não existe, é filho de um passado onde as regras eram forjadas no tempero do aço e no fortalecimento da consciência ideológica do proletariado. Tiago é uma pintura neorrealista e anacrónica, mas bela no contraste com um mundo onde quase ninguém acredita em coisa nenhuma. Eis o primeiro de três paradoxos. O segundo é a reação indignada do presidente da Assembleia da República com as palmas em fuga das galerias – Aguiar Branco que pouco se preocupa com as maiores atrocidades linguísticas dos deputados, ficou maçado com o minuto mais poético na sua presidência. E o terceiro paradoxo, é a circunstância de ter sido André Ventura a proporcionar aquele momento de inesperada felicidade.

Diário de Notícias
www.dn.pt