A fé não devia magoar: o impacto das guerras religiosas na infância

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"Gosto de rezar e ir à Igreja, mas o pai diz que Deus não existe e que é tudo uma fantochada.” “A mãe não quer que eu vá às reuniões da Igreja com o pai e, por isso, vamos às escondidas.” Estes desabafos, reais e frequentes, mostram como muitas crianças vivem divididas entre dois mundos quando os pais separados têm posições opostas sobre religião.

A lei portuguesa não define de forma exaustiva o que são “questões de particular importância”, mas a doutrina e a jurisprudência têm vindo a concretizar este conceito e a apontar exemplos claros: decisões sobre saúde, educação, residência e também a educação religiosa, pelo menos até aos 16 anos. Na realidade, porém, muitas crianças acabam por ser introduzidas em contextos religiosos por iniciativa de um dos pais, sem que o outro tenha conhecimento ou dê o seu consentimento, o que gera tensões que ultrapassam o plano jurídico e entram diretamente no campo emocional.

A religião pode ser uma fonte de sentido, pertença e valores, mas também pode transformar-se num terreno de conflito, quando dois pais separados defendem posições radicalmente diferentes. Um incentiva a participação religiosa, valoriza rituais e transmite a fé como algo importante, enquanto o outro ridiculariza essas práticas, desvaloriza a crença ou critica abertamente “aquele Deus”. Para a criança, que ama ambos e depende emocionalmente dos dois, esta oposição não é apenas uma divergência de opiniões - é um dilema impossível.

Sem maturidade para resolver conflitos de lealdade, a criança sente que qualquer escolha implica desagradar a alguém que ama. Esta tensão interna pode manifestar-se como confusão identitária, medo de expressar opiniões, receio de ser criticada ou ridicularizada e tendência para esconder o que pensa ou sente. Aprende a silenciar dúvidas e curiosidades, não porque não as tenha, mas porque percebe que o tema é emocionalmente perigoso.

O problema agrava-se quando a religião deixa de ser uma escolha pessoal e passa a ser usada como arma na coparentalidade. Quando um dos pais envolve a criança em práticas religiosas sem o consentimento do outro, ou quando a fé - ou a ausência dela - serve para desvalorizar o outro progenitor, a criança não está a aprender sobre espiritualidade ou liberdade de consciência. Está a ser colocada no centro de uma disputa que não lhe pertence. E isso tem custos.

A investigação e a prática clínica mostram que estas crianças podem desenvolver baixa autoestima, dificuldade em confiar nos próprios pensamentos e maior ansiedade. Algumas rejeitam totalmente a religião no futuro, não por convicção, mas porque a associam ao conflito. Outras aderem rigidamente a uma das posições como forma de agradar a um dos pais ou de encontrar alguma estabilidade emocional. Em ambos os casos, a escolha deixa de ser livre.

O mais prejudicial não é a diferença de crenças, mas a hostilidade, a ridicularização e a instrumentalização da criança. Quando um progenitor goza ou humilha as crenças promovidas pelo outro, a criança sente que parte de si está a ser atacada. E quando é pressionada a escolher um lado, perde a possibilidade de construir a sua própria identidade espiritual de forma segura e autónoma.

O que protege a criança é simples, mas exige maturidade adulta: respeito mútuo, mesmo sem acordo; mensagens consistentes sobre liberdade de escolha; e a garantia de que não tem de ser árbitro, mensageira ou troféu ideológico.

Quando ambos os pais conseguem transmitir que “pensamos de forma diferente, mas ambos te amamos e podes formar a tua própria opinião”, a criança cresce com espaço para explorar, questionar e construir o seu caminho (religioso ou não), sem medo de dececionar ninguém.

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