Há uma frase particularmente cómoda e verdadeira que as democracias europeias repetem sempre que a extrema-direita cresce: “É preciso ouvir os eleitores.”
Não obstante, talvez também fosse importante fazer outra pergunta: por que é que esses eleitores passaram tantos anos a ouvir a extrema-direita sem que lhes fosse apresentada uma alternativa credível?
O resultado da Saxónia-Anhalt devia obrigar a Europa a olhar-se ao espelho. Não porque a Alemanha esteja condenada a repetir o passado – a História não funciona assim –, mas há mecanismos políticos que já conhecemos e que convém reconhecer quando voltam a aparecer. E, aqui, é preciso evitar dois erros muito comuns.
O primeiro é dizer que todos os eleitores da extrema-direita são fascistas. Não são.
O segundo é achar que, por não serem, a extrema-direita deixa de representar um perigo. Também não é verdade.
As pessoas votam nestes partidos pelas mais variadas razões. Há quem o faça por desespero económico, quem esteja farto dos governos, quem tenha medo de perder o emprego ou de não conseguir pagar a casa. Há quem vote por hostilidade à imigração e há também quem queira simplesmente dar um pontapé no sistema e castigar os partidos que governaram durante décadas.
Podemos discutir cada uma dessas motivações. Mas o problema político fundamental é outro: o que fazem estes partidos quando chegam ao poder?
Os direitos raramente desaparecem todos na noite das eleições. Vão desaparecendo aos poucos. Primeiro em nome da segurança, depois da ordem, da família, da pátria ou de uma qualquer urgência nacional.
Ninguém chega normalmente ao governo e anuncia que vai acabar com a democracia. Seria demasiado simples. O autoritarismo moderno aprendeu a usar fato e gravata e, sobretudo, aprendeu a utilizar as instituições.
Também por isso me incomoda a forma simplista como, às vezes, contamos a ascensão do nazismo. Parece que Hitler apareceu um dia, fez meia-dúzia de discursos inflamados e recebeu as chaves da Alemanha.
Não foi assim.
Hitler tornou-se chanceler em janeiro de 1933 através de um processo formalmente legal. Não tinha conquistado uma maioria absoluta. Foi nomeado no meio de negociações políticas conduzidas por conservadores, que julgavam ser capazes de o controlar.
Esse foi um dos erros mais desastrosos da velha direita alemã. Acreditaram que podiam usar os nazis contra a esquerda e que, terminado o serviço, tudo voltaria mais ou menos ao normal.
Pouco depois veio o incêndio do Reichstag. Nem sequer é necessário entrar aqui na interminável discussão sobre quem ateou o fogo, já que, politicamente, o que interessa é aquilo que o regime fez com o incêndio.
Aproveitou uma crise para restringir liberdades fundamentais, perseguir opositores e criar um estado de exceção. O Decreto do Incêndio do Reichstag abriu caminho à perseguição de comunistas, sociais-democratas e outros adversários políticos e, poucas semanas depois, a Lei de Plenos Poderes deu ao governo a possibilidade de legislar praticamente sem controlo parlamentar.
Foi assim que uma democracia começou a ser desmontada: não apenas através da violência nas ruas, mas também através de decretos, leis, votações e instituições que continuavam aparentemente a funcionar.
É isso que interessa recordar.
Uma democracia pode ser destruída por pessoas que utilizam os seus próprios mecanismos legais para a esvaziar por dentro.
Por isso, mais do que procurar cópias perfeitas dos anos 30, vale a pena prestar atenção aos mecanismos: a normalização da violência verbal, a invenção permanente de inimigos internos, a desumanização de minorias, os ataques à imprensa, a pressão sobre professores, magistrados, universidades e instituições culturais.
Quando dirigentes da extrema-direita europeia falam em “recuperar a cultura”, “limpar a Administração”, “proteger as crianças da ideologia”, “defender o verdadeiro povo” ou “restaurar a identidade nacional”, não devemos fingir que estas ideias surgiram ontem.
O vocabulário muda, a época é outra e as instituições também são outras. Não obstante, na minha opinião, algumas ideias têm uma história que não desaparece só porque lhes mudámos o nome.
A Itália dá-nos outro exemplo importante.
Mussolini não conquistou simplesmente o Estado italiano numa batalha militar. Acabou por ser convidado a formar governo. As elites conservadoras acreditavam, também elas, que poderiam aproveitar a força dos fascistas e mantê-los sob controlo.
Não conseguiram.
E isto é importante porque existe uma tentação recorrente entre setores da direita tradicional: pensar que é possível aproveitar eleitoralmente a extrema-direita, copiar parte do seu discurso ou fazer alianças pontuais com ela sem sofrer consequências.
A História aconselha alguma prudência.
Uma vez no poder, Mussolini também não acabou imediatamente com todas as eleições. O processo foi gradual. As regras foram sendo alteradas, a oposição foi sendo intimidada, a violência política tornou-se tolerável e depois normal.
É assim que o autoritarismo muitas vezes avança: apresenta cada nova agressão como resposta necessária a uma ameaça anterior.
É também por isso que parte da esquerda desconfia da palavra “ordem” quando ela aparece completamente desligada da Justiça Social.
Porque a ordem pode significar coisas muito diferentes.
Pode significar uma sociedade onde as pessoas têm emprego, casa, escola, cuidados de saúde e igualdade perante a lei, mas também pode significar mais polícia nas ruas, mais pobres nas prisões e uma comunicação social cada vez menos disposta a incomodar quem governa.
A segunda solução costuma ser mais rápida e politicamente mais fácil.
Quando falamos dos perigos da extrema-direita, pensamos muitas vezes no pior cenário possível: perseguições étnicas, campos de concentração, guerra. Isso permite-nos tranquilizar a consciência. Como nada disso está a acontecer, concluímos que os alarmados estão a exagerar.
Só que o problema é que a degradação democrática começa muito antes. Começa quando aceitamos que algumas pessoas merecem menos proteção do Estado do que outras. Quando determinados grupos deixam de ser tratados como cidadãos ou seres humanos concretos, e passam a servir de explicação para todos os problemas do país.
De repente, o migrante explica tudo: os salários baixos, a criminalidade, a falta de casas, as urgências cheias, o desemprego, a insegurança e até uma suposta decadência cultural.
É uma explicação politicamente muito útil. Sobretudo porque desloca a discussão de quem tem poder para quem quase não o tem.
Há 20 anos, certas afirmações podiam destruir uma carreira política. Hoje entram nos debates televisivos sob a designação simpática de “opiniões controversas”. Depois tornam-se propostas eleitorais. Mais tarde tornam-se projetos de lei.
E, quando finalmente chegam à lei, já estamos tão habituados à discussão que aquilo que antes parecia inaceitável começa a parecer apenas mais uma posição política.
É assim que os limites se deslocam.
Também por isso não acredito que o combate à extrema-direita possa resumir-se aos chamados cordões sanitários parlamentares.
Eles podem ser necessários em determinadas circunstâncias. Mas não chegam.
Se uma democracia não consegue dar resposta ao preço da habitação, aos baixos salários, à precariedade, ao abandono de certas regiões e à sensação de que trabalhar já não garante uma vida minimamente digna, não basta dizer às pessoas em quem não devem votar.
É preciso dar-lhes alguma coisa em que possam acreditar.
A História alemã e italiana não nos obriga a dizer que estamos outra vez em 1933 ou em 1922.
O que a História nos permite é reconhecer comportamentos que já vimos antes: elites que acham que conseguem controlar extremistas, conservadores que acreditam poder beneficiar eleitoralmente deles, meios de comunicação que transformam o racismo em espetáculo e sociedades cansadas às quais se oferece um culpado simples para problemas complicados.
Talvez seja aí que esteja o verdadeiro perigo da extrema-direita europeia: conseguir convencer pessoas suficientes de que certos direitos podem ser relativizados, desde que seja em nome da segurança; que algumas liberdades podem esperar, desde que seja em nome da ordem; e que a igualdade pode ter exceções, desde que as excepções atinjam, primeiro, pessoas de quem a maioria não gosta.
A esquerda, por seu lado, também faria bem em aprender uma lição. É que se deixar de falar de salários, habitação, trabalho, serviços públicos, desigualdade e concentração da riqueza, alguém ocupará esse espaço e, como se tem visto, é muito mais fácil explicar a uma pessoa zangada que a culpa é do vizinho estrangeiro do que explicar-lhe como funcionam décadas de escolhas económicas e políticas.
É aí que a batalha começa.
Muito antes de uma extrema-direita chegar ao governo, ela pode já ter conseguido uma vitória mais profunda: obrigar todos os outros a discutir o mundo utilizando as suas palavras.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico